Especial Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência

No Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, o Mulheres.ao conversa com Jaqueline Ngulo, engenheira de sistemas, líder tecnológica e activista da inclusão feminina nas áreas STEM. Reconhecida nacional e internacionalmente, Jaqueline tem conciliado rigor técnico, liderança estratégica e impacto social, posicionando a tecnologia como ferramenta de transformação em Angola.

1. Quando percebeu que a tecnologia faria parte do seu caminho?

Jaqueline Ngulo (J.N): O meu sonho inicial era o Direito. Cheguei a ingressar nessa área, mas rapidamente senti que não estava alinhada com aquilo que verdadeiramente me movia. Foi um momento de honestidade comigo mesma. Percebi que a Engenharia já fazia parte do meu percurso, ainda que eu não tivesse assumido isso desde o início.

Com o tempo, compreendi que a tecnologia não seria apenas profissão. Tornou-se instrumento de transformação, espaço de construção e ferramenta concreta para gerar impacto.

2. Crescer e estudar em Angola influenciou essa escolha?

J.N: Influenciou profundamente. A minha formação foi marcada por adaptação. Esperava seguir Informática, mas fui colocada na área de Electricidade. Ao mesmo tempo, vivi um período exigente com a perda do meu pai, que sempre incentivou a minha literacia digital.

Ele acreditava na importância do conhecimento tecnológico mesmo antes de eu perceber o alcance dessa visão. Esse incentivo foi determinante.

Também observei muitas raparigas desistirem por não se sentirem representadas ou apoiadas. Essa realidade mostrou-me que talento não falta, o que precisa de ser fortalecido são as estruturas de suporte.

3. Teve referências femininas na área?

J.N: Durante a minha formação, não tive mentoras próximas na tecnologia. Isso tornou o percurso mais solitário e exigente.

Com o tempo, passei a reconhecer mulheres que abriram caminho antes de nós, tanto em Angola como fora do país. Essa consciência despertou em mim a responsabilidade de contribuir para que as próximas gerações encontrem referências mais acessíveis e visíveis.

4. Como descreve a evolução da sua carreira?

J.N: A minha trajectória desenvolveu-se de forma progressiva.

  • Primeiro, construí uma base técnica sólida em ambientes de elevada responsabilidade, onde aprendi rigor e disciplina.
  • Depois, aprofundei a dimensão estratégica, ligando tecnologia a gestão, políticas públicas e cooperação institucional.
  • Por fim, consolidei uma liderança orientada para impacto social, através da Women in Tech Angola e da VEUMA, com foco na capacitação feminina e no desenvolvimento sustentável.

5. Que responsabilidades sente que ultrapassam a dimensão profissional?

J.N: A representatividade é uma delas. Quando uma mulher ocupa determinados espaços, não está apenas a exercer uma função — está também a alargar possibilidades para outras.

Sinto igualmente a responsabilidade de contribuir para ambientes mais inclusivos e estruturados. Liderar é criar condições para que o acesso deixe de depender de excepcionalidade.

A tecnologia, para mim, deve servir pessoas. Se não melhora vidas, perde o seu verdadeiro sentido.

6. De onde nasce essa dimensão de propósito no seu trabalho?

J.N: Sempre acreditei que o trabalho deve ter um significado que vá além do título profissional. A tecnologia foi-se revelando como instrumento de algo maior.

A fé teve um papel importante nesse entendimento. Houve momentos de incerteza em que confiar no tempo certo das coisas foi essencial. Aprendi que preparação, disciplina e propósito caminham juntos.

Acredito que cada etapa — inclusive as mais desafiantes — contribuiu para fortalecer a minha visão. Se hoje estou em determinados espaços, é porque houve um processo de aprendizagem que me preparou para isso.

7. Que competências considera essenciais para mulheres na ciência?

J.N: Resiliência e capacidade de adaptação, porque a tecnologia evolui constantemente.

  • Formação técnica consistente e aprendizagem contínua.
  • Capacidade estratégica para compreender o impacto mais amplo das soluções tecnológicas.
  • Inteligência emocional e equilíbrio pessoal.

E, sobretudo, o espírito colaborativo. O crescimento sustentável é colectivo.

8. O que representam os prémios e distinções que recebeu ao longo do seu percurso?

J.N: Os prémios representam validação de um caminho construído com consistência. Nunca foram o objectivo principal, mas surgiram como consequência do trabalho desenvolvido.

Cada distinção traz consigo um significado duplo. Por um lado, confirma que o impacto gerado ultrapassou fronteiras. Por outro, reforça a responsabilidade de continuar a actuar com rigor e compromisso.

Vejo esses reconhecimentos como plataformas. Eles ampliam a visibilidade do trabalho feito em Angola e contribuem para posicionar a liderança feminina africana em espaços de decisão. O prémio, em si, é simbólico; o que permanece é o impacto que ele permite expandir.

9. O reconhecimento internacional altera a forma como o trabalho feito em Angola é percebido?

J.N: De certa forma, sim. Muitas vezes, a validação externa acontece antes do reconhecimento interno. Isso revela que ainda precisamos de fortalecer os nossos mecanismos nacionais de valorização do talento.

O reconhecimento internacional abre portas e cria novas oportunidades de diálogo institucional. No entanto, é fundamental que também internamente desenvolvamos estruturas sólidas que reconheçam e apoiem o mérito.

Angola tem profissionais altamente qualificados. O desafio não é capacidade técnica — é consolidação de ecossistemas sustentáveis.

10. De que forma esses prémios ampliam a sua responsabilidade?

J.N: Sempre que recebemos um reconhecimento, cresce a responsabilidade. A visibilidade aumenta, e com ela a expectativa.

Sinto que a responsabilidade deixa de ser apenas pessoal. Passa a ser colectiva. Cada prémio amplia a minha voz, mas também reforça o compromisso de representar outras mulheres e defender mudanças estruturais.

O desafio é transformar reconhecimento em acção concreta — seja através de programas de capacitação, bolsas, mentoria ou articulação com decisores.

11. Na sua experiência, quais são ainda os principais desafios enfrentados por mulheres nas áreas STEM em Angola?

J.N: Os desafios continuam a ser estruturais.

Persistem barreiras culturais que associam tecnologia ao universo masculino. A representatividade feminina em cargos técnicos de decisão ainda é reduzida, e o acesso a certificações internacionais ou especializações continua limitado.

Há também uma questão de permanência. Muitas mulheres entram nas áreas científicas, mas encontram dificuldades em manter-se e progredir.

Para que haja mudança real, é necessário actuar de forma integrada — cultura, educação, mercado e políticas públicas precisam de evoluir em simultâneo.

12. Sentiu, ao longo da sua carreira, que teve de provar mais vezes a sua competência por ser mulher?

J.N: No início da carreira, sim. Houve situações em que a minha presença era questionada, não pelo meu desempenho, mas por estereótipos associados ao género — e, por vezes, até à aparência.

Essas experiências exigiram maturidade e foco. Em vez de reagir, optei por responder com competência técnica e resultados consistentes.

Com o tempo, compreendi que não preciso provar constantemente quem sou. O trabalho fala por si. Hoje, concentro-me em construir ambientes onde as próximas mulheres não precisem de enfrentar os mesmos obstáculos.

13. Que estereótipos considera mais urgentes de desconstruir?

J.N: O primeiro é a ideia de que feminilidade e competência técnica são opostas. Não são.

Outro estereótipo é o de que mulheres não têm aptidão natural para áreas exactas. A ciência não é uma questão de género, mas de disciplina e formação.

Também é urgente desconstruir a noção de que liderança tecnológica é território exclusivamente masculino.

E, por fim, a expectativa de que sucesso profissional exige abdicação total da vida pessoal. O equilíbrio não é sinónimo de fragilidade, é inteligência.

14. O que ainda precisa de mudar para que mais meninas angolanas escolham carreiras científicas?

J.N: A mudança começa cedo.

É necessário trabalhar com famílias e escolas para desconstruir preconceitos desde a infância. As meninas precisam de estímulo, incentivo e validação.

Além disso, é fundamental criar redes de mentoria visíveis. Quando uma menina vê alguém que se parece com ela a ocupar determinado espaço, passa a acreditar que também pode.

Por fim, políticas públicas consistentes são indispensáveis. Não basta incentivar o acesso; é preciso garantir permanência e progressão.

15. Que papel têm as escolas, as famílias e as políticas públicas neste processo?

J.N: As famílias são o primeiro espaço de formação de expectativas. Se acreditam no potencial das suas filhas, isso faz diferença.

As escolas devem oferecer ambientes inclusivos e combater preconceitos de forma activa, tornando o ensino científico acessível e estimulante.

As políticas públicas precisam de garantir condições concretas: bolsas, acesso a recursos tecnológicos, programas de incentivo e ambientes de trabalho equilibrados.

Quando estes três pilares funcionam de forma articulada, o impacto é estrutural.

16. Como iniciativas como a Women in Tech Angola contribuem, na prática, para transformar este cenário?

J.N: A Women in Tech Angola actua com programas estruturados e objectivos claros.

Trabalhamos na empregabilidade feminina através do programa Nzila, na capacitação técnica por meio do Ujumu, e promovemos literacia digital comunitária. Também envolvemos famílias, porque acreditamos que a mudança começa na base.

O nosso foco não é apenas inspirar, mas criar condições reais de entrada e permanência no mercado tecnológico.

17. Defende que a tecnologia deve gerar impacto social. Como traduz essa visão no seu dia-a-dia?

J.N: No sector financeiro, assegurando estabilidade e segurança de sistemas que sustentam a economia. Na cooperação institucional, criando pontes tecnológicas entre países e promovendo integração regional.

Nas iniciativas sociais, capacitando mulheres para autonomia profissional e inclusão digital. A tecnologia, para mim, deve reduzir desigualdades e ampliar oportunidades. Se não serve pessoas, perde o seu sentido.

18. Que relação estabelece entre ciência, tecnologia e o ODS 5 – Igualdade de Género?

J.N: A tecnologia é um acelerador natural da Agenda 2030. Sem participação feminina plena nas áreas científicas, o desenvolvimento torna-se incompleto.

Promover literacia digital, liderança feminina e acesso a oportunidades é uma forma concreta de avançar no cumprimento do ODS 5.

A igualdade de género não pode ser apenas discurso — precisa de traduzir-se em presença efectiva nos espaços de decisão tecnológica.

19. Que mensagem deixaria às meninas que hoje demonstram interesse pela ciência, mas ainda duvidam se este lugar também é para elas?

J.N: Diria que avancem, mesmo quando houver receio. Coragem não é ausência de medo — é decisão apesar dele.

Acredito que cada talento tem um propósito. E acredito, também, que quando colocamos dedicação e disciplina no que fazemos, as oportunidades surgem no momento certo.

O lugar delas na ciência não é concessão. É direito. E o futuro tecnológico de Angola precisa da sua presença.

20. Quem é Jaqueline Ngulo hoje?

J.N: Sou uma profissional que entende a tecnologia como instrumento de desenvolvimento e responsabilidade social.

A fé continua a ser um dos pilares da minha vida. Não como algo exibido, mas como orientação silenciosa. Acredito que o talento que recebemos deve ser colocado ao serviço de algo maior.

Vejo a liderança como acto de serviço. O verdadeiro sucesso é aquele que deixa portas abertas para quem vem depois.

Deixe o seu comentário