A empreendedora e formadora Mel da Silva, fundadora da plataforma English for Success, tem dedicado o seu trabalho ao ensino de inglês para a comunidade lusófona, com especial atenção às mulheres. Ao longo da sua trajectória, transformou o domínio da língua inglesa numa ferramenta de confiança, autonomia e mobilidade, ajudando mulheres a superar o medo de errar e a ocupar o seu espaço em contextos internacionais.

Em entrevista ao Mulheres.ao, a educadora fala sobre a sua trajectória multicultural, os desafios que muitas mulheres enfrentam ao aprender inglês e o impacto que a língua pode ter no acesso a oportunidades académicas e profissionais.

1. Quando olha para o seu percurso, que experiências considera mais determinantes para a mulher e profissional que é hoje?

M.S: Cresci entre diferentes culturas e países, com raízes angolanas, moçambicanas, indianas e portuguesas. Vivi em Angola, Portugal, Espanha, França e Reino Unido e cada uma dessas experiências contribuiu para moldar a forma como vejo o mundo.

Desde cedo percebi que o mundo é maior do que qualquer fronteira. Cada país trouxe-me uma nova forma de compreender as pessoas e as relações. Essa vivência multicultural ensinou-me a adaptar-me, a escutar e, sobretudo, a construir pontes entre culturas.

2. Em que momento percebeu que o ensino do inglês poderia tornar-se uma ferramenta de impacto social?

M.S: Houve um momento muito claro em que percebi que o inglês não era apenas uma língua, mas um verdadeiro acelerador de oportunidades.

Observei muitas pessoas talentosas – sobretudo mulheres – a ficarem para trás simplesmente por não dominarem o idioma. Percebi que muitas portas permanecem fechadas não por falta de capacidade, mas por barreiras linguísticas. Foi aí que compreendi que ensinar inglês podia ter um impacto social muito maior.

3. Que desafios encontrou ao longo da sua trajectória, especialmente enquanto mulher no seu sector?

M.S: Um dos desafios mais visíveis não é técnico, mas emocional. Muitas mulheres adultas chegam ao processo de aprendizagem com um forte medo de errar.

Durante as aulas observo padrões que se repetem: falam em voz muito baixa, riem por nervosismo ou pedem desculpa antes mesmo de tentar construir uma frase. Muitas dizem logo que o seu inglês é muito fraco, como se se preparassem para falhar antes mesmo de tentar.

4. O que esses desafios lhe ensinaram enquanto educadora?

M.S: Ensinar inglês vai muito além da gramática ou do vocabulário. Grande parte do trabalho consiste em ajudar as pessoas a reconstruir a confiança.

Quando criamos um ambiente seguro, onde o erro é normalizado e os progressos são valorizados, as pessoas evoluem muito mais rapidamente. Já acompanhei alunas que passaram anos sem conseguir dizer uma frase completa e que, pouco tempo depois, estavam a participar em reuniões profissionais com segurança.

5. O que a motiva diariamente no trabalho que desenvolve?

M.S: O que mais me motiva é assistir à transformação na confiança das pessoas.

Quando alguém começa um curso cheio de receios e, com o tempo, passa a comunicar com mais naturalidade, percebemos que a aprendizagem da língua está a ter impacto real na vida dessa pessoa. Muitas vezes não é apenas sobre falar inglês, mas sobre sentir que se tem voz.

Mel da Silva afirma que o acesso à educação e às ferramentas digitais será determinante.

6. Qual considera ser hoje o principal impacto do seu trabalho?

M.S: Acredito que o maior impacto está em ajudar as pessoas a conquistarem autonomia.

O domínio do inglês abre portas para oportunidades académicas, profissionais e até pessoais. Para muitas mulheres isso significa poder negociar melhores condições de trabalho, estudar no estrangeiro ou comunicar com mais independência.

7. Se tivesse de destacar uma conquista recente da English for Success, qual seria?

M.S: Destacaria o crescimento da comunidade que se formou à volta da English for Success.

Mais do que uma escola de idiomas, tornou-se um espaço de aprendizagem e partilha. É muito gratificante ver alunos a utilizarem o inglês em situações reais, como entrevistas internacionais ou reuniões de trabalho.

8. Que desafios ainda observa nas mulheres que procuram aprender inglês?

M.S: O perfeccionismo continua a ser um dos maiores obstáculos. Muitas mulheres sentem que precisam de estar totalmente preparadas antes de tentar.

Ao mesmo tempo, vemos frequentemente homens a arriscar mais, mesmo quando não cumprem todos os requisitos. Incentivar as mulheres a experimentar e a aceitar o erro como parte do processo é fundamental.

9. Como avalia actualmente o papel das mulheres angolanas neste contexto global de aprendizagem e mobilidade?

M.S: Vejo sinais muito positivos. Cada vez mais mulheres angolanas estão interessadas em desenvolver competências internacionais e investir na própria formação.

Ainda existem desafios relacionados com acesso a recursos e oportunidades, mas acredito que estamos a assistir a uma mudança gradual.

10. Quando pensa no futuro de Angola, que mudanças considera mais importantes para as mulheres?

M.S: O acesso à educação e às ferramentas digitais será determinante.

Num mundo cada vez mais conectado, aprender online e comunicar globalmente pode transformar a realidade de muitas mulheres, independentemente da sua localização.

Mel da Silva explica como aprender inglês pode abrir novas oportunidades para mulheres

11. Que temas considera prioritários quando se fala de oportunidades e qualidade de vida para as mulheres no país?

M.S: Um dos pontos mais importantes é garantir acesso à educação de qualidade e às competências necessárias para participar num mercado global.

Além disso, é fundamental investir em infra-estruturas digitais que permitam ampliar o acesso à informação e à formação.

12. Que sinais positivos observa actualmente na evolução das mulheres angolanas?

M.S: Vejo cada vez mais mulheres a procurar formação, a criar negócios e a investir no próprio desenvolvimento profissional.

Existe uma geração de mulheres mais consciente das suas capacidades e mais disposta a ocupar espaço em diferentes áreas.

13. O que significa para si ser mulher angolana hoje?

M.S: Significa fazer parte de uma geração que procura construir novas oportunidades, mantendo uma ligação forte às suas raízes culturais.

Ser mulher angolana hoje é também assumir um papel activo na transformação social e abrir caminhos para as gerações futuras.

14. Como procura equilibrar a vida profissional, pessoal e emocional?

M.S: Não acredito num equilíbrio perfeito. O que existe é uma intenção diária de fazer o melhor possível com o tempo e os recursos disponíveis.

Tenho a sorte de contar com uma rede de apoio muito forte, sobretudo da minha família.

15. Que mensagem gostaria de deixar às leitoras do Mulheres.ao?

M.S: Não é necessário esperar sentir-se totalmente pronta para avançar.

Muitas vezes o mais importante é dar o primeiro passo, mesmo com medo. A confiança constrói-se ao longo do caminho, através da prática e da coragem de tentar.

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