Num contexto em que a representação feminina nos meios de comunicação social ainda revela limitações estruturais, Natália Yange criou o Mulheres.ao com o objectivo de estabelecer um espaço dedicado à visibilidade, valorização e projecção das mulheres angolanas. Actualmente, a plataforma afirma-se como um ecossistema que integra informação, posicionamento estratégico, comunidade e impacto social.

Nesta entrevista, a fundadora apresenta o percurso de desenvolvimento do projecto, o seu modelo de crescimento e uma análise estruturada sobre o papel da mulher na sociedade angolana, os desafios persistentes no mercado de trabalho e as transformações necessárias para promover maior equidade e representatividade.

Como nasce o Mulheres.ao e que necessidade procurava responder?

N.Y: O Mulheres.ao nasce da necessidade de criar um espaço onde as mulheres angolanas fossem verdadeiramente representadas. Sentia que havia muitas histórias, trajectórias e contributos relevantes que não estavam a ser vistos da forma que mereciam.
Mais do que um portal, quis construir uma plataforma que informasse, mas também inspirasse e criasse oportunidades reais.

Hoje, como define o Mulheres.ao?

N.Y: O Mulheres.ao é uma plataforma digital de informação, inspiração e influência feminina. Funciona como um ecossistema que liga conteúdo, comunidade e marcas.
Nós não produzimos apenas conteúdos — transformamos histórias e informação em ferramentas de posicionamento, visibilidade e impacto.

O que diferencia o portal no contexto angolano e africano?

N.Y: O nosso principal diferencial está na forma como integramos três elementos: conteúdo com propósito, visibilidade estratégica e comunidade.
Não nos limitamos a publicar. Criamos narrativas com impacto real, damos visibilidade a mulheres em diferentes sectores e desenvolvemos soluções de comunicação para marcas que querem falar com este público de forma relevante.
Além disso, apostamos muito em histórias locais, com contexto e identificação — isso aproxima-nos da nossa audiência.

O Mulheres.ao também tem uma vertente comercial. Como funciona?

N.Y: Sim, e isso é parte essencial do nosso modelo.
As categorias Carreira e Entrevista funcionam como ferramentas de posicionamento para profissionais. Através de uma matéria no portal e que reverte nas redes sociais, ajudamos a construir autoridade e presença digital.
Também temos séries de conteúdo, que permitem a marcas e profissionais associarem-se a temas de forma consistente, e soluções como publi-reportagens, banners e cobertura de eventos, que garantem visibilidade com contexto e credibilidade.

O portal tem desenvolvido parcerias estratégicas?

N.Y: Sim, e esse tem sido um dos pilares do nosso crescimento.
Já desenvolvemos várias parcerias com marcas, profissionais e plataformas focadas no desenvolvimento feminino, como a PWN Angola e a Muhatu Energie, além de colaborações com iniciativas e eventos relevantes, como o projecto VOAR e outros.
Estas parcerias permitem ampliar o alcance do portal, reforçar a credibilidade e, acima de tudo, criar impacto real através de acções conjuntas.

Que impacto têm sentido junto da comunidade?

N.Y: Temos sentido uma resposta muito forte. As mulheres identificam-se com os conteúdos, partilham, comentam e participam. E o melhor disso é termos o Club Delas, uma extensão da comunidade do Portal, responsável pelos eventos realizados, um espaço onde um grupo de mulheres de diferentes idades e esferas sociais está presente e serve de apoio umas com as outras.
Isso levou-nos a dar um passo além do digital e criar experiências físicas, onde essa ligação se torna mais real e mais próxima.

Fala-nos dos eventos realizados recentemente

N.Y: Nos últimos meses, realizámos dois eventos próprios, o “Elas à Mesa”, com temas como “Aprender Sempre” e “O impacto do cancro na paciente e nas famílias”.
Foram momentos muito importantes, que reuniram cerca de 250 mulheres, com partilha, aprendizagem e conexão real.
Também já realizámos o “Bazar Delas”, focado no empoderamento económico, criando espaço para empreendedoras divulgarem e venderem os seus produtos.

Que importância têm as parcerias internacionais?

N.Y: São extremamente importantes porque reforçam a nossa credibilidade e ampliam o nosso alcance.
Trabalhámos com o Banco Mundial Angola, numa matéria sobre o Dia da Mulher Africana, que foi publicada no blog do Banco Mundial África.
Também fomos parceiros no evento Conexão Feminina em 2025 e 2026, reforçando o nosso papel como plataforma de comunicação e mobilização.

Que papel acredita que as mulheres têm hoje na sociedade e no consumo?

N.Y: Socialmente, ainda recai sobre a mulher o papel de educar, organizar e gerir a família, enquanto ao homem, idealmente, é atribuído o papel de prover.
Na prática, as mulheres acumulam funções. Mantêm a responsabilidade familiar e participam activamente na missão de prover, uma vez que o rendimento do seu trabalho é, na maioria das vezes, canalizado para a família.
Saem para trabalhar, formar-se, cuidar de si e dos seus, tudo dentro das mesmas 24 horas.
O papel da mulher está, hoje, visível no excesso de tarefas que assume, seja por necessidade ou por aquilo que ainda lhe é socialmente atribuído.

No consumo, o seu papel é igualmente preponderante. Por ser a gestora do lar e da dinâmica familiar, é, na maioria dos casos, a principal decisora na escolha de produtos e serviços.

O que pode ser feito, de forma prática, para reduzir essa sobrecarga feminina no contexto profissional?

N.Y: O que deve ser feito é começar a educar os meninos e levar os homens existentes a reflectir sobre o impacto de serem omissos, coniventes e facilitadores destas diferenças sociais.
É necessário trazer para as mesas de conversa o facto de que tanto mulheres como homens são parte efectiva da sociedade — primeiro a familiar e depois a social.
E normalizar a participação activa de todos na família, principalmente dos homens. Depois disso, teremos ambientes de trabalho mais educados e adequados.

Que papel devem as empresas assumir na promoção de um ambiente de trabalho saudável e equilibrado para as mulheres?

N.Y: As empresas são, na sua maioria, lideradas por homens, o que torna natural que a visão do que é considerado funcional, eficiente e produtivo esteja, muitas vezes, construída a partir dessa perspectiva.

No entanto, há uma necessidade clara de evolução para uma abordagem mais equilibrada e inclusiva. Não se trata de valorizar mais ou menos a mulher, mas de promover equidade, garantir que diferentes realidades são consideradas na forma como os ambientes de trabalho são estruturados.

Falar de equidade é, também, falar de condições concretas. Criar ambientes de trabalho mais justos e propícios passa por pequenas e grandes decisões: desde garantir acesso a recursos básicos, como analgésicos e absorventes, até assegurar flexibilidade, compreensão e condições que permitam a cada profissional desenvolver as suas actividades laborais com dignidade, conforto e desempenho.

No fundo, trata-se de empatia e de uma visão mais humana das organizações — querer para o outro o mesmo que se quer para si, reconhecer que realidades diferentes exigem respostas mais ajustadas.

Como avalia hoje o mercado de trabalho para as mulheres em Angola? Está mais acessível ou continua desigual?

N.Y: O mercado está mais acessível em termos de entrada, mas continua desigual em termos de permanência, crescimento e reconhecimento.
As mulheres hoje conseguem chegar aos espaços, conseguem estudar, formar-se e entrar no mercado. Mas o grande desafio está em manter-se, crescer e ser reconhecida na mesma medida.

Ainda existem barreiras implícitas no acesso ao emprego. Como avalia a forma como o mercado continua a abordar a maternidade e a vida pessoal feminina?

N.Y: Num mercado onde ainda se colocam, em entrevistas de emprego, questões como “tem filhos?”, “com quem ficarão os seus filhos se for contratada?” ou “tem a certeza de que consegue desempenhar essa função?”, percebemos que o desafio ainda é real.

Essas perguntas partem do princípio de que a mulher não tem consciência da função a que se candidata, como se não tivesse acesso à descrição de tarefas, noção do período laboral ou capacidade de gerir a sua vida pessoal e profissional.
Como se não pudesse ser, ao mesmo tempo, mãe, mulher e profissional.

Que desafios existem na gestão da carreira feminina e que postura as mulheres precisam desenvolver para se manterem competitivas no mercado?

N.Y: Os desafios começam por ser estruturais e sociais. Mas as mulheres que se propõem a estar no ambiente profissional têm, como qualquer outra pessoa, de assumir o seu papel com consciência e responsabilidade e entregar resultados.

A diferença é que existem responsabilidades das quais não se podem abster, o que torna o equilíbrio mais exigente.

Por isso, é essencial que estejam preparadas, que se desenvolvam constantemente e que consigam organizar a sua vida de forma a sustentar esse nível de exigência ao longo do tempo.

Todos têm 24 horas. Nesse sentido, torna-se fundamental ter uma rede de apoio ou condições criadas, tanto no ambiente familiar como profissional, que permitam à mulher estar a 100% em cada tarefa que se propõe.r a sua vida para sustentar esse nível de exigência.

Como olha hoje para a liderança feminina?

N.Y: A liderança deve, e precisa, de se manter em discussão a todos os níveis. Deve servir de referência e de construção contínua.

As líderes de hoje representam, em muitos casos, uma fase de transição: entre gerações de mulheres que não tiveram voz, espaço ou oportunidade, e aquelas que agora precisam de referências para se posicionarem, crescerem e liderarem com mais consciência.

Há um papel importante de abertura de caminho, mas também de responsabilidade na forma como se lidera e se influencia.

Líderes devem ser pessoas experientes, focadas na empresa, nas pessoas e no funcionamento, com vista a criar ambientes favoráveis a resultados, crescimento e desenvolvimento sustentável.ultados e ao crescimento.

E a independência financeira?

N.Y: É o maior desafio, o maior diferencial e, talvez, o principal impulsionador do poder de escolha e da liberdade da mulher. Ter dinheiro próprio, seja de salário ou da venda de jinguba, desde que seja honesto, traz uma satisfação profunda. Não apenas pelo valor em si, mas pelo que representa.

É a possibilidade de decidir. De dizer: não quero, não posso, não devo, não faço — sem medo. A independência financeira não é apenas uma questão económica, é uma questão de dignidade, autonomia e posicionamento.

O que ainda impede mulheres de ocupar espaços de decisão?

N.Y: Nada impede. O espaço de decisão é proporcional à entrega, à formação, ao desenvolvimento e à disponibilidade de crescimento.
E as mulheres têm essas competências. Porém… a luta continua.

Houve momentos em que sentiu que estava no limite? O que a fez parar ou repensar?

N.Y: Há muitos momentos em que me sinto no limite, aliás, como várias mulheres, vivo no limite.

Mas, ter dinheiro para me levar ao karaóke, ao cinema ou pedir delivery, resolve parte disso. Ter espaço para descansar, poder reorganizar o trabalho e ser compreendida enquanto mulher, mãe e profissional faz diferença e traz equilíbrio.

Se pudesse mudar uma coisa na vida das mulheres angolanas hoje, o que mudaria?

N.Y: Investiria na formação gratuita de meninas e mulheres, independente da idade. Educação, desenvolvimento de competências, defesa pessoal e autonomia financeira.
Mulheres informadas e independentes transformam sociedades.

Quem é a Natália Yange?

N.Y: A Natália Yange é uma mulher angolana, curiosa por natureza, que passa muitas horas a ler e a tentar compreender o mundo.
Mãe, formada em Ciências da Informação, apaixonada por comunicação e que trabalha como directora do departamento digital na Authentic, ou. seja, com comunicação e estratégia de marcas em plataformas digitais.

Sou mãe, filha, irmã — e isso define muito de quem eu sou. Acredito em Deus, no trabalho e no esforço.

A maior verdade da vida: “do suor do teu rosto comerás o teu pão”.
A maior lição que recebi: vai lá e faz.

O percurso de Natália Yange e do Mulheres.ao reflecte uma realidade maior: a necessidade de criar espaços onde as mulheres não apenas participem, mas liderem, influenciem e decidam.

Num contexto onde continuam a acumular papéis e responsabilidades, a plataforma afirma-se como um espaço de visibilidade, posicionamento e construção de oportunidades.

Mais do que um portal, é uma resposta activa a uma sociedade em transformação.

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