Trabalhar, cuidar e resistir não é apenas uma expressão; na verdade, é a realidade quotidiana de muitas mulheres angolanas. Entre exigências profissionais, responsabilidades familiares e pressões sociais silenciosas, constrói-se, assim, um percurso marcado por resiliência, adaptação e decisões difíceis.

Nesta entrevista ao Mulheres.ao, Estefania da Costa partilha, por sua vez, uma reflexão directa sobre o seu percurso no Direito, bem como os desafios estruturais enfrentados pelas mulheres e o peso invisível que acompanha quem sustenta múltiplos papéis em simultâneo.

Percurso

A ligação ao Direito nem sempre nasce de vocação idealizada. No caso de Estefania da
Costa, surge da observação crítica da realidade e da necessidade de compreender e, sempre
que possível, intervir.

1. Estefania, recuando um pouco no tempo, como começou a sua ligação ao
Direito e o que a levou a escolher este caminho?

Estefania Costa.: A ligação ao Direito não nasceu de um ideal romântico, mas de uma
consciência muito prática sobre a realidade à minha volta. Cresci a observar desigualdades,
silêncios e injustiças normalizadas, sobretudo no contexto familiar e social. O Direito surgiu
como uma ferramenta não perfeita, mas necessária para compreender essas dinâmicas e,
sempre que possível, intervir com critério e responsabilidade. Escolhi este caminho porque
acredito na possibilidade de melhorar sistemas a partir de dentro.
O percurso, no entanto, não foi linear. Como acontece com muitas mulheres, foi moldado por
responsabilidades precoces e acontecimentos pessoais que exigiram maturidade antecipada.

2. Quando olha para o seu percurso, há momentos que sente que a moldaram
profundamente, como mulher e como profissional. Quais foram esses marcos
e, no fim, sente que valeu a pena?

E.C.: Sem dúvida alguma! A maternidade ainda muito jovem, a entrada precoce no mercado
de trabalho e perdas pessoais profundas foram momentos que me obrigaram a amadurecer de
forma acelerada. Não tive o privilégio de um percurso linear ou confortável, cada fase exigiu
adaptação, resiliência e, muitas vezes, decisões difíceis. No fim, não olho para “valeu a pena”
como uma recompensa emocional, mas como uma constatação: tornei-me uma profissional
mais consciente, mais firme e menos ingénua em relação à realidade.
Assumir responsabilidades cedo implica também aprender a posicionar-se, sobretudo num
contexto onde idade e género ainda condicionam a forma como se é percebida.

3. Ao assumir responsabilidades ainda jovem, sentiu que teve de se afirmar de
forma diferente para ser reconhecida? Como viveu esse processo?

E.C.: Sim, claramente. A juventude, quando associada ao género, tende a ser confundida com
falta de capacidade. Tive de aprender cedo a comunicar com objetividade, a sustentar
posições com consistência e a impor limites sem agressividade, mas com firmeza. Foi um
processo exigente, porque implica não só competência técnica, mas também gestão de
perceções. Não é confortável, mas é necessário para quem quer ser levada a sério.

    Trabalho e impacto

    Num quotidiano marcado por exigência constante, o sentido do trabalho deixa de estar ligado
    à idealização e passa a ser medido pelo impacto real.

    4. No meio da exigência do dia-a-dia, o que continua a dar sentido ao seu
    trabalho?

    E.C.:
    O sentido vem da utilidade. Saber que o meu trabalho contribui, ainda que de forma
    discreta, para o funcionamento de instituições e para a resolução de problemas concretos é o
    que sustenta a continuidade. Não romantizo o trabalho, mas valorizo o impacto real, mesmo
    quando não é visível.
    Ao longo do percurso, há padrões que se repetem e que revelam uma realidade colectiva mais
    ampla.

    5. Ao longo do seu percurso, há alguma realidade vivida por outras mulheres
    que a tenha marcado?

    E.C.:
    Há um padrão que se repete: mulheres altamente funcionais, que sustentam famílias,
    carreiras e estruturas inteiras, mas que raramente são reconhecidas na mesma medida. O
    que mais me marcou não foi um caso isolado, mas essa constância, a normalização da
    sobrecarga feminina como se fosse um requisito e não uma distorção.
    Esse padrão traduz-se num retrato claro da mulher angolana contemporânea.

    6. Hoje, quando olha para a mulher angolana que trabalha, cuida e sustenta
    diferentes papéis, que retrato lhe vem à mente?

    E.C.:
    Visualizo mulheres extremamente resistentes, mas muitas vezes exaustas. Aprenderam
    a gerir múltiplas frentes sem margem para falhar, porque o sistema não foi desenhado para a
    sua realidade. É um retrato de força, mas também de desgaste acumulado.
    Mesmo em ambientes exigentes, há sempre uma intenção de impacto — ainda que silenciosa.

    7. Para além das funções e responsabilidades, que impacto procura deixar nas
    pessoas com quem se cruza?

    E.C.:
    Procuro ser uma referência de consistência e integridade. Não no sentido de perfeição,
    mas de previsibilidade: alguém que cumpre, que respeita e que não negocia princípios
    básicos. Num ambiente muitas vezes instável, isso já é, por si só, um impacto relevante.
    A expressão “trabalhar, cuidar e resistir” resume uma vivência que, muitas vezes, não é
    visível, mas é profundamente sentida.

    8. Como é que essa realidade se manifesta no seu dia-a-dia e no de tantas
    outras mulheres?

    E.C.:
    Manifesta-se na centralização de papéis. A mulher trabalha formalmente, cuida da
    família, gere conflitos emocionais e ainda precisa manter-se funcional. Não há pausas reais. É
    uma rotina de responsabilidade contínua, onde o descanso muitas vezes não é uma opção,
    mas um luxo dotado de críticas e questionamento de merecimento.
    Para além do que se vê, existe um peso silencioso que acompanha esta realidade.

    9. Que peso invisível sente que muitas mulheres carregam hoje em Angola?

    E.C.: O peso de ter de dar conta de tudo sem falhar e, ao mesmo tempo, manter uma imagem
    de controlo. Existe uma cobrança interna e externa muito forte: ser boa profissional, boa mãe,
    boa companheira, estar fisicamente saudável e emocionalmente estável. Esse nível de
    exigência, quando não é reconhecido, torna-se um fardo silencioso.
    E se há algo que pode mudar esta realidade, começa pela redistribuição.

    10. O que poderia trazer mais leveza à vida das mulheres angolanas?

    E.C.: Mais partilha real de responsabilidades, sobretudo no contexto familiar, e ambientes
    profissionais mais ajustados à realidade das mulheres, sem penalizações implícitas. Leveza
    não vem de menos trabalho, mas de uma distribuição mais justa e de estruturas mais
    conscientes.
    O futuro das mulheres angolanas está a ser construído num equilíbrio entre avanço e
    contradição.

    11. Que tipo de mulheres estamos a formar hoje?

    E.C.: Mulheres mais informadas e mais conscientes do seu valor, mas ainda expostas a
    contradições entre independência e expectativas sociais tradicionais. Estamos a formar
    mulheres mais preparadas para posicionarem-se, mas o contexto ainda não evoluiu na mesma
    velocidade.
    Ainda há caminhos a abrir e outros a consolidar.

    12. Que portas ainda precisam de ser abertas?

    E.C.: Acesso a oportunidades em igualdade real, não apenas formal. Espaços de decisão,
    educação de qualidade e políticas que saiam do papel. Mais do que abrir portas, é garantir que
    as mulheres conseguem permanecer e crescer nesses espaços.

      Identidade e humanidade

      Ser mulher angolana é uma experiência que ultrapassa a definição, é uma prática diária.

      13. O que significa, para si, ser mulher angolana hoje?

      E.C.:
      É viver entre a força e a responsabilidade constante. Ser mulher angolana hoje é
      adaptar-se, resistir e, muitas vezes, avançar mesmo sem condições ideais. Não é apenas uma
      identidade, é uma prática diária de superação.
      Num contexto exigente, cuidar de si torna-se uma decisão consciente.

      14. Como tem aprendido a cuidar de si?

      E.C.:
      Com limites. Aprendi que não é possível responder a tudo sem comprometer a própria
      estabilidade. Cuidar de mim tem passado por priorizar, dizer não quando necessário e aceitar
      que nem tudo será perfeito, mas precisa ser sustentável.

      15. Que mensagem deixaria às mulheres que vivem essa sobrecarga
      silenciosa?


      E.C.:
      Aprendam a priorizar-se sem culpa. Resistência não pode ser o único caminho. É
      importante questionar, redistribuir e, sempre que possível, recusar cargas que não são
      exclusivamente nossas. Ser forte não deve significar suportar tudo em silêncio.
      A entrevista com Estefania da Costa evidencia uma realidade estrutural que atravessa a vida
      de muitas mulheres angolanas, o acúmulo de responsabilidades, a exigência constante e a
      ausência de reconhecimento proporcional.

      Entre trabalho, cuidado e resistência, constrói-se uma geração mais consciente, mas ainda
      inserida em estruturas que exigem adaptação contínua.
      Mais do que um testemunho individual, esta conversa revela um retrato colectivo e reforça a
      necessidade de repensar a forma como o trabalho, a família e a sociedade se organizam em
      torno das mulheres.

        Escreva nos comentários a sua experiência como mulher profissional angolana e, além disso, partilhe os desafios que enfrenta no dia-a-dia.

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