Rubina Suzeth consolidou-se como uma das figuras mais influentes da dança angolana contemporânea. Coreógrafa, bailarina e fundadora da ILU, Rubina Suzeth tem cruzado palcos internacionais, formação académica no exterior e projectos de impacto social, afirmando a dança como instrumento de identidade cultural, profissionalização e transformação social em Angola.

Entre palcos nacionais e internacionais, residências artísticas e iniciativas de descentralização, o seu trabalho levanta questões sobre profissionalização, estrutura institucional e o lugar da mulher angolana na cultura contemporânea. Nesta entrevista ao Mulheres.ao, reflecte sobre trajectória, desafios e visão para o futuro da dança em Angola.

1. Para lá dos palcos e dos prémios, quem é a Rubina Suzeth e que valores sustentam a mulher e a artista que hoje vemos?

Rubina Suzeth (R.S): Rubina Suzeth é uma jovem apaixonada pela dança, pelas diferenças, por viagens e pela liberdade de ser e existir. Sou a última filha entre quatro irmãos, nascida numa das aldeias que separam Angola da Zâmbia, e amo profundamente os meus.

Sou uma mulher que ama mulheres. As minhas memórias e experiências estão muito associadas à minha mãe — uma mulher periférica, viúva, com quatro filhos, num país marcado pela guerra. Cresci entre a mata e a sobrevivência. Sempre que enfrento algo difícil, pergunto-me se aquilo é sequer um terço do que a minha mãe passou. Apesar de não se poder quantificar dor ou sofrimento, sei que vou ultrapassar, porque ela ultrapassou primeiro.

Rubina Suzeth é muito isso: persistência. Por mais desafiadora que seja uma peça, uma obra ou até um período na universidade, fui sempre movida por essa base de continuar e concluir.

2. Ao revisitar o seu percurso, que momentos e viragens foram determinantes para a profissional que é hoje?

R.S: A primeira grande oportunidade profissional que tive aos 19 anos foi decisiva. Fui seleccionada para representar Angola na RIR PALOP, em Moçambique. Foi a minha primeira experiência profissional e internacional em simultâneo.

A partir dessa oportunidade conheci um mundo além do meu. Tive formações que mudaram a minha perspectiva e me fizeram procurar sempre o “mais”.

Outro momento marcante foi a bolsa de estudos para a Rússia. A partir daí, muitos sonhos começaram a concretizar-se. Estar naquele território mudou também a forma como as pessoas passaram a olhar para o meu trabalho.

Foram sequências de acontecimentos que, na maioria, não dependeram apenas da minha decisão. As oportunidades surgiram e fui abraçando cada uma de forma natural.

Abrir o meu canal de YouTube em 2016 também foi determinante. Permitiu documentar a minha trajectória desde o início e criar um sentimento de representatividade junto do público angolano. É algo que me orgulha profundamente.

3. A sua formação passou por Angola, Rússia e Portugal. Como essas experiências moldaram a sua visão sobre dança, identidade e pertença?

R.S: Passar por diferentes realidades culturais e educativas torna impossível manter a mesma visão sobre si e sobre o próprio trabalho.

No meu caso, foi uma transformação profunda. Estar fora fez-me perceber o quanto, por vezes, somos limitados na forma de pensar. Fez-me querer treinar mais, elevar o meu nível de criação e evitar a posição de “profissional básica”.

Essas vivências também reforçaram a importância da identidade. Podemos admirar outros lugares, mas existe algo que está ligado a nós e que, quando bem utilizado, pode transcender artisticamente.

Nenhum lugar é melhor do que a nossa casa, a nossa comida, o nosso lar. Não importa quantas vezes partimos, é importante voltar. Porque não estaremos verdadeiramente em casa em nenhum outro lugar do mundo.

4. Que desafios enfrentou por ser mulher, jovem e angolana num sector ainda pouco estruturado?

R.S: Enquanto mulher, o desafio é significativamente maior para nos mantermos no mercado profissional, nacional e internacional.

Existem mais homens em destaque na indústria da dança, o que coloca o profissionalismo feminino numa comparação constante. Se dançamos com energia ou somos rigorosas, somos vistas como “a agir como homens”.

Apesar de muitos estilos não terem distinção de género, a escassez de rostos femininos faz com que certos estilos sejam percepcionados como masculinos, o que nos coloca em desvantagem até na conquista de trabalhos.

Dança, Missão e Impacto

5. Em que momento percebeu que a dança podia ser uma ferramenta de transformação social?

R.S: No momento em que senti a minha própria vida a ser transformada através da dança. Percebi que precisava usar essa experiência não apenas para ajudar, mas para partilhar transformação de trajectos e histórias.

6. O nome ILU significa “céu”. Que simbolismo carrega para si?

R.S: Quando procurava um nome para o projecto, queria algo que remetesse a um lugar onde a criação não tivesse limites e que, ao mesmo tempo, trouxesse identidade angolana.

O céu transmite-me liberdade — liberdade de voar, criar e correr atrás dos meus sonhos. Sempre que viajava e olhava para as nuvens, sentia que o mundo era meu.

O céu é esse lugar onde amor, paixão e liberdade de criar não têm limitações nem julgamentos.

7. O ILU Dance Tour levou a dança a várias províncias e já impactou mais de mil estudantes. Que realidades encontrou e o que mais a marcou?

R.S: Luanda é o centro de quase tudo, mas existem muitos talentos à volta de Angola que precisam de orientação artística e representatividade.

Muitos não têm sequer possibilidade de vir para Luanda. Então, o melhor é ir até eles. Porque o “céu” é para todos — e a ILU também.

Encontrei comunidades com enorme sede de aprender e crescer. Um momento marcante foi o contacto com as Mumuilas, na Huíla, onde aprendi sobre o Efiko, as danças e os símbolos. Isso ficou gravado no meu coração.

O que mais me toca é saber que a minha arte foi sentida ao ponto de inspirar pessoas. Acredito que, no final, é para isso que a arte existe.

Profissão, Reconhecimento e Representação

8. Como equilibra criação artística, gestão e responsabilidade social?

R.S: Organizo o ano por temporadas. Há períodos dedicados à coreografia, eventos e televisão, e outros focados na responsabilidade social da ILU.

Intercalo tudo com pausas para não sobrecarregar o corpo e a mente.

9. Que etapa foi mais determinante na sua consolidação profissional?

R.S: Todas foram cruciais, pois representam momentos distintos que construíram a profissional que sou hoje.

Mas estudar e licenciar-me na Rússia, enquanto desenvolvia projectos noutros países, firmou a minha autoridade e relevância como profissional da dança em Angola.

10. O que representou ser reconhecida como Dançarina do Ano em 2023?

R.S: Foi uma reafirmação do trabalho que vinha a ser feito. Por ter sido um concurso por votação, percebi que os angolanos apreciavam e reconheciam o meu trabalho.

11. Como encara a responsabilidade de representar Angola internacionalmente e a necessidade de provar o seu valor?

R.S: A preparação vem da bagagem construída ao longo dos anos. Faço o meu trabalho — e faço-o muito bem.

Na Rússia, precisei trabalhar duro para provar que, apesar de ser africana, não dançava apenas estilos associados ao continente africano. Tive de sair da bolha onde me colocavam.

Em Angola também enfrentei questionamentos, mas conquistei o meu espaço com resultados. Hoje sinto, por vezes, que não pertenço a 100% a lado nenhum, mas acredito que isso faz parte do crescimento.

12. Que estratégias adoptou para profissionalizar o seu trabalho e garantir sustentabilidade?

R.S: Formo os meus próprios bailarinos. Acredito no potencial que temos, mas é necessário trabalhar técnica e disciplina.

Procuro consolidar uma imagem de excelência e competência que atraia financiadores e clientes para os nossos projectos.

Mulher, Cultura e Futuro

13. Como avalia hoje o lugar da mulher angolana na dança?

R.S: Continua a ser um espaço de resistência. Existe sexualização e fetichização.

Mas é fundamental que mais mulheres utilizem a dança para abordar questões que nos aprisionam. O nosso trabalho também passa por reeducar a sociedade.

14. Que mudanças considera prioritárias para o sector da dança em Angola?

R.S: Precisamos de estruturas académicas, teatros e fundos que apoiem projectos artísticos.

Gostaria de ver um ensino artístico mais estruturado e maior envolvimento do público no consumo cultural.

15. Enquanto embaixadora cultural, que Angola procura mostrar ao mundo?

R.S: Uma Angola próspera, com talentos de nível mundial.

Quero que, por onde eu passar, as pessoas lembrem que aquela coreógrafa e bailarina excepcional, ética e capaz de competir entre os melhores do mundo é angolana.

Mulher, Cultura e Futuro

17. Como avalia hoje o lugar da mulher angolana na dança e nas artes performativas? Continua a ser um espaço de resistência?

R.S: Sim, continua. É uma prova diária de potencialidades. Existe sexualização por parte do público e até de colegas, bem como fetichização* por homens que querem “testar a mobilidade ou flexibilidade da bailarina”.

Ao mesmo tempo, acredito que é importante e necessário que mais mulheres utilizem o corpo, a dança e a performance para falar sobre questões que nos aprisionam. O nosso trabalho também passa por reeducar a sociedade.

18. Que mudanças estruturais considera prioritárias para o sector da dança e que papel projectos como a ILU podem desempenhar na educação e construção de futuros possíveis?

R.S:
Para mim, as maiores mudanças precisam ser institucionais. Precisamos de estruturas académicas, salas, teatros e fundos que apoiem projectos artísticos. Gostaria de ver um ensino da arte mais estruturado, com materiais adequados, qualidade pedagógica e financiamento estatal e privado.

Também é importante que o público abrace mais a cultura do consumo artístico. O artista existe porque existe público, mas para que esse artista esteja preparado para transmitir a sua arte, é necessário educação e apoio.

A ILU desempenha um papel crucial na educação, identidade e construção de futuros para jovens. Criamos dinâmicas e oficinas que estimulam não apenas capacidades artísticas, mas também valores morais e éticos. Com mais apoio, poderemos fazer projectos maiores, porque com financiamento próprio tudo se torna mais limitado. Ainda assim, a ILU é, neste momento, um dos projectos mais destacados nesse sentido.

19. Quando pensa nas próximas gerações de bailarinas angolanas, que diferenças gostaria de ver e que conselhos considera essenciais?

R.S:
É difícil falar sobre isso, porque não tive um início de carreira difícil. Tive, talvez, um dos inícios mais bem-sucedidos, no sentido de que a oportunidade me encontrou preparada. Ainda muito jovem já tinha realizado feitos que pessoas com anos de carreira não tinham alcançado. Fui, de certa forma, a regra dentro da excepção.

Não mudaria nada na forma como iniciei.

Mas, olhando para a realidade actual, diria às mulheres que não aceitem posicionar-se como acessórios dançantes de músicos, muitas vezes em contextos vulgares ou excessivamente sexualizados. Esse tipo de posicionamento pode pesar mais tarde na construção da sua imagem profissional.

20. Como cuida da sua saúde emocional e o que significa, para si, ser mulher angolana hoje?

R.S: Depois do burnout que tive em Maio de 2025, percebi que precisava parar. Hoje organizo melhor as temporadas de trabalho, preparo-me mentalmente, trabalho e tiro férias no momento certo.

Como tenho liberdade para criar o meu próprio horário, organizo cronogramas que me permitam respirar e descansar. Incluo sessões de treino, meditação e alongamentos sozinha. Mantenho uma alimentação equilibrada e hidratação constante. Dançar para mim mesma, sem a cobrança de estar a “trabalhar”, é extremamente terapêutico.

Ser mulher angolana, para mim, é ser dona do mundo — não numa romantização da força e do sofrimento, mas como alguém que faz acontecer e movimenta o país e o mundo.

Quando leio sobre tantas mulheres angolanas brilhantes, percebo que somos, de facto, donas do nosso destino.

A mensagem final da Rubina às leitoras do Portal www.mulheres.ao?

R.S: Não existe nada impossível neste mundo. Temos apenas uma vida para fazer acontecer. Agarrem o medo e a dúvida e avancem. Ficarão surpreendidas com a quantidade de “impossíveis” que conseguirão realizar. O mundo é nosso.

Ao longo da entrevista, Rubina Suzeth aborda os desafios da profissionalização da dança em Angola, destaca a necessidade de maior estrutura institucional para o sector e reforça a importância da identidade cultural na construção de uma carreira internacional sustentável.

O seu percurso evidencia uma trajectória consistente, marcada por investimento técnico, posicionamento estratégico e compromisso com a formação de novos talentos.

Num contexto em que as artes performativas ainda procuram consolidação estrutural no país, a sua actuação reforça a presença feminina no sector cultural e amplia o debate sobre carreira, representatividade e sustentabilidade artística em Angola.

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