Conciliar maternidade, trabalho fora de casa e gestão do lar continua a representar um dos maiores desafios para muitas mulheres, num contexto marcado por sobrecarga emocional, exigências profissionais pouco flexíveis e ausência de redes de apoio consistentes. A realidade vivida por mães trabalhadoras evidencia dificuldades estruturais que vão desde a gestão do tempo e do cansaço físico até ao sentimento recorrente de culpa associado à maternidade activa.
A dificuldade de conciliação entre maternidade e trabalho no quotidiano
A conciliação entre maternidade e trabalho tem-se revelado um exercício diário de gestão de prioridades. Muitas mulheres relatam a impossibilidade de cumprir plenamente todas as exigências impostas pelos diferentes papéis sociais que acumulam, sobretudo quando o trabalho se prolonga para além do horário laboral e invade o espaço doméstico.
Elsa Mbumba descreve essa realidade como um somatório de pequenas ausências que se acumulam ao longo do tempo, desde a dificuldade em manter rotinas familiares, como sentar-se à mesa para refeições conjuntas, até à impossibilidade de acompanhar diariamente momentos simples, como a leitura antes de dormir. A isso junta-se a continuidade das tarefas profissionais em casa e o sentimento de culpa associado, inclusive quando surge o desejo de estar sozinha ou em silêncio, longe das exigências constantes do cuidado.
A culpa como elemento transversal à maternidade activa
O sentimento de culpa surge como um denominador comum entre mulheres que trabalham fora. A percepção de não estar suficientemente presente, de perder a paciência ou de não conseguir oferecer atenção contínua aos filhos acompanha muitas mães, mesmo quando estas cumprem jornadas exaustivas.
Carolina Costa Luacuti, mãe de duas crianças pequenas, afirma que deixou de procurar um equilíbrio idealizado. Para si, a maternidade activa implica aceitar que nem tudo pode ser sustentado ao mesmo tempo e que, diariamente, é necessário escolher “qual o prato que vai cair”. A estratégia encontrada passa por concentrar-se inteiramente na tarefa em curso, seja o trabalho ou o cuidado das filhas, ainda que isso signifique chegar ao final do dia sem ter conseguido contactar com casa. Segundo a própria, a culpa acompanha este processo, mas o exercício do perdão tornou-se essencial para continuar.
Equilíbrio entre vida profissional e familiar: um ideal distante
Para várias mães, a ideia de equilíbrio entre vida profissional e familiar revela-se irrealista. Em vez disso, o quotidiano é marcado por escolhas constantes, onde uma área acaba inevitavelmente por ser priorizada em detrimento de outra, sem que isso elimine a pressão emocional associada.

Namir Yliane descreve este momento como um estado de limbo, entre o desejo de avançar profissionalmente e o receio de reduzir ainda mais o tempo já limitado com a filha. A incerteza entre aproveitar oportunidades presentes ou aguardar uma fase futura da maternidade traduz um dilema vivido por muitas mulheres que receiam perder tanto oportunidades profissionais como momentos irrepetíveis da infância dos filhos.
Falta de flexibilidade laboral e impacto na saúde física
A rigidez dos horários de trabalho surge como um factor agravante na conciliação entre maternidade e emprego. Denise Diogo aponta a dificuldade em cumprir horários como uma das suas maiores limitações, associada à privação constante de sono e às longas deslocações diárias. A necessidade de conduzir em condições de cansaço extremo, aliada à falta de compreensão no
local de trabalho, contribui para um desgaste físico e emocional significativo, sobretudo quando não existe espaço para explicação ou empatia.
Rede de apoio: um recurso nem sempre acessível
A existência de uma rede de apoio consistente é apontada como um elemento determinante para a continuidade da vida profissional das mães. No entanto, essa rede nem sempre está disponível de forma espontânea ou acessível.
Carolina Costa Luacuti refere que depende de uma rede de apoio paga e que a ausência temporária dessa estrutura, por motivos imprevistos, altera completamente a rotina familiar e profissional. Esta realidade evidencia a importância da flexibilidade laboral, uma vez que mesmo planeamentos considerados estáveis podem ser rapidamente desestruturados por imprevistos ligados ao cuidado infantil.
Entre a pressão profissional e a maternidade idealizada
A sobreposição de expectativas sociais e profissionais intensifica o sentimento de inadequação. Lussoki descreve o conflito constante entre acompanhar os filhos a consultas médicas e o receio de ser vista como uma colaboradora pouco comprometida. No espaço doméstico, o trabalho continua a disputar atenção com os filhos, gerando situações de tensão, cansaço extremo e decisões silenciosas, como adiar dispensas médicas ou isolar-se momentaneamente para recuperar forças.
Pressão social e impacto na identidade feminina
A cobrança social em torno da figura da “mãe perfeita” mantém-se presente, alimentando sentimentos de ansiedade e frustração. Renata Zamba identifica a dificuldade em gerir tempo e energia como um dos principais obstáculos, agravado pela falta de apoio institucional e familiar. Segundo o seu relato, a pressão para corresponder simultaneamente às exigências profissionais e maternas leva muitas mulheres a questionarem a continuidade da carreira, apesar de reconhecerem o trabalho como um elemento essencial da estabilidade familiar e da autonomia financeira.
Um dilema colectivo ainda sem resposta estrutural
Dorita Magalhães reconhece não ter encontrado ainda um ponto de equilíbrio, descrevendo um quotidiano marcado por culpa, cansaço emocional e perda de paciência. A sensação de falhar em diferentes frentes, mesmo quando se procura acolher e cuidar, surge como uma experiência partilhada por muitas mães.
Também Natália Yange recorda um dilema vivido no início da maternidade, entre a continuidade da carreira profissional e a decisão de permanecer em casa para proteger a saúde dos filhos. Embora considere ter feito a escolha mais adequada no momento, reconhece que a culpa associada à decisão permanece, revelando como estas escolhas continuam a marcar o percurso das mulheres ao longo do tempo.
Os desafios enfrentados por mulheres que conciliam maternidade e trabalho reflectem um dilema colectivo que ultrapassa escolhas individuais. A ausência de políticas laborais mais flexíveis, de estruturas de apoio acessíveis e de uma distribuição mais equilibrada das responsabilidades familiares mantém a sobrecarga concentrada sobre as mulheres, tornando a maternidade activa um território ainda marcado pela exigência permanente e pela invisibilização do esforço diário.
