Desde muito cedo, Yohana Selei aprendeu que existir num corpo fora do padrão exige coragem diária. Actriz, criadora de conteúdo e fundadora do projecto Inspire-se, Yohana construiu a sua voz a partir da experiência dura da deficiência, da pobreza, da exclusão e da luta pela autonomia. Nesta entrevista ao Mulheres.ao, fala sem filtros sobre infância, identidade, rejeição, maternidade, tentativas de suicídio e sonhos que ainda insiste em cumprir.

1. Yohana, podes contar um pouco sobre a tua infância e como descobriste a tua paixão pela representação artística?

Yohana Selaei (Y.S): A minha infância ficou marcada muito cedo. Tornei-me uma pessoa com deficiência aos dois anos, em 1999. A minha mãe conta que isso aconteceu após eu apanhar uma vacina contra a poliomielite, numa fase de testes da Cruz Vermelha. No bairro onde vivíamos, a maioria das crianças que recebeu essa vacina acabou por falecer. Sobreviveram apenas duas, eu incluída. Mais tarde, ao pesquisar sobre a época, encontrei apenas referências a um surto que matou 41 crianças.

Durante muito tempo não me entendia como uma criança diferente. Brinquei bastante, vivi a infância sem consciência da minha limitação física. Só comecei a perceber essa diferença já perto da adolescência, quando surgiram as vaidades. Foi aí que passei a enxergar a minha deficiência como algo negativo, tal como os outros a viam.

2. O que te motivou a tornares-te actriz e criadora de conteúdo?

Y.S: Fui convidada para participar num curta-documentário sobre acessibilidade e, no dia da exibição, tive um choque ao ver a minha própria imagem no ecrã. Nunca me tinha visto sob tantos ângulos e isso causou-me um enorme desconforto visual. Levei tempo a perceber que essa estranheza vinha do facto de nunca ter visto uma pessoa com deficiência real na televisão.

Foi aí que decidi tornar-me actriz. Primeiro, para normalizar o meu corpo para mim mesma. Depois, para ajudar a normalizar corpos como o meu na televisão e, consequentemente, na sociedade. Para mim, ser actriz nunca foi apenas sobre fama ou dinheiro, é sobre autoconhecimento e conquista de espaço.

A criação de conteúdo surgiu porque eu não tinha muitas opções. A internet é um espaço aberto, capaz de oferecer independência financeira a quem se dedica. Além disso, a minha presença digital acabou por atrair oportunidades e ajudar a normalizar a imagem de pessoas com deficiência.

3. És fundadora do Projecto Inspire-se. O que te inspirou a criar esta comunidade?

Y.S: No início, criei o Inspire-se para inspirar pessoas com deficiência a terem coragem de existir e de procurar a própria felicidade, independentemente das barreiras. Com o tempo, percebi que podia fazer mais e contribuir de forma concreta para enfrentar as dificuldades que essas pessoas vivem, muitas delas resultado de profundas desigualdades sociais.

4. Quais são os principais objectivos do projecto e que impacto já sentes na sociedade angolana?

Y.S: Para além de celebrar corpos com deficiência, o objectivo é promover acesso à educação, ao mercado de trabalho e ao desenvolvimento pessoal das pessoas com deficiência em Angola. Ainda há um longo caminho a percorrer, mas já se notam sinais positivos.

Hoje fala-se mais de inclusão e diversidade, algumas empresas mostram-se mais comprometidas, há pessoas sem deficiência a criarem projectos inclusivos e, dentro da comunidade Inspire-se, vemos mudanças claras de comportamento. Já tivemos membros a conseguir o primeiro emprego através do projecto. Isso mostra que o impacto começa a ser visível.

5. Falas muito sobre amor-próprio e aceitação. Como foi esse processo para ti, Yohana Selei?

Y.S: Durante muito tempo achei que amor-próprio era apenas achar-me bonita. Com o tempo, percebi que vai muito além disso. É ouvir-me, acolher-me, compreender-me e tratar-me bem. Parei de fazer piadas depreciativas sobre mim, que eu confundia com autoaceitação, mas que eram, na verdade, auto-ataques.

Aprendi a não mascarar sentimentos, a chorar quando me sinto vulnerável e a assumir quem realmente sou. Foi aí que me aceitei de verdade e passei a ver-me com mais valor, independentemente do olhar externo.

6. De que forma a tua visibilidade inspira outras mulheres?

Y.S: Principalmente a aceitarem-se como são e a terem coragem de ser felizes na própria pele. Recebo mensagens diárias de pessoas, muitas delas sem deficiência, que dizem ter mudado comportamentos, seguido sonhos ou passado a olhar para si mesmas com mais respeito depois de me acompanharem.

Também tenho visto mais pessoas com deficiência a ocuparem espaços na internet, fruto da minha coragem de me expor.

7. Já enfrentaste barreiras na indústria cultural relacionadas com a acessibilidade?

Y.S: Enfrento até hoje, tanto barreiras arquitectónicas como atitudinais. Estudei teatro e nunca era seleccionada para nenhuma peça. Quando questionei o motivo, ouvi que o meu biotipo não era ideal para o tipo de peças que faziam.

Aquilo abalou-me profundamente e quase desisti da representação. Decidi, então, que deixaria de procurar castings e passaria a ocupar o meu espaço de outra forma. Eu sou actriz, independentemente das portas fechadas.

8. Como vês a indústria cultural angolana em termos de inclusão?

Y.S: Ainda não é inclusiva. Quando há pessoas com deficiência, normalmente é para cumprir uma imagem de inclusão ou em narrativas centradas apenas na deficiência. É raro ver-nos em contextos onde isso não seja o foco.

9. Que mudanças gostarias de ver para tornar o sector mais inclusivo?

Y.S: Mudanças arquitectónicas pensadas desde a origem e uma mudança comportamental profunda. Basta perguntar: se fosse eu naquela condição, como gostaria de ser tratado? A resposta é simples.

10. Já experienciaste julgamentos ou olhares condescendentes?

Y.S: No digital, lido com comentários negativos como qualquer criador de conteúdo. O que mais me incomoda é a mídia ainda não pensar em pessoas como eu para trabalhos audiovisuais, por preconceito em relação aos corpos.

11. O que significa, para ti, empoderar mulheres em Angola?

Y.S: Mostrar o caminho para a liberdade, seja qual for a escolha de cada mulher, especialmente daquelas que enfrentam desafios adicionais, como a acessibilidade.

12. Acreditas que a educação em Angola faz o suficiente pela inclusão?

Y.S: Infelizmente, não. As experiências inclusivas que vivi vieram sobretudo de iniciativas estrangeiras realizadas em Angola.

13. Qual é a tua principal motivação para continuar, apesar das adversidades?

Y.S: Ser pobre já é duro, mas ser pobre com deficiência é ainda mais. Vivi com medo de não alcançar independência financeira, enfrentei abuso sexual, depressão e ansiedade. Tenho o sonho de ser mãe e quero viver esse amor com dignidade e segurança. Ainda me falta viver isso, e é isso que me faz continuar.

14. Houve momentos em que pensaste em desistir, Yohana?

Y.S: Sim. Tentei tirar a minha própria vida cinco vezes. A maior dor que um ser humano pode sentir é não ser amado. Hoje, escolho sair dos lugares onde não há amor e ficar onde ele existe.

15. Como imaginas o teu futuro profissional?

Y.S: Imagino-me em grandes produções, nacionais ou internacionais, a reescrever a história sobre pessoas com deficiência na televisão e no cinema. Quero que nunca mais um corpo como o meu cause estranheza.

16. Que legado queres deixar?

Y.S: Quero manter a liberdade de terminar a minha história como me apetecer. Se deixar um bom legado, óptimo. Se não, será por escolha consciente.

17. Quem é a Yohana Selei?

Y.S: A Yohana Selei é uma deusa, feita à sua imagem e semelhança.

Deixe o seu comentário