A Dra. Scheila Pages criadora do Método de Regulação Hormonal, conta com mais de duas décadas de experiência na área da nutrição, construiu um percurso profundamente ligado à saúde feminina, à regulação hormonal da mulher e à promoção do bem-estar sustentável.

A sua prática clínica alia ciência, escuta activa e uma visão integrada da mulher, que considera não apenas a alimentação, mas também o sono, o stress, o metabolismo e a saúde emocional.

Nesta entrevista ao Mulheres.ao, a especialista fala sobre os principais desafios da saúde feminina, desconstrói mitos associados ao emagrecimento, aborda a realidade angolana e partilha a sua visão para o futuro da nutrição integrada à saúde da mulher.

1. O seu percurso na área da nutrição já soma mais de duas décadas. Que momentos considera determinantes para a profissional que é hoje?

Scheila Pages (S.P): Desde muito cedo, a minha história cruza-se com a nutrição e a saúde feminina. Na adolescência, vivi o excesso de peso e cresci a observar a luta constante da minha mãe contra a obesidade. Vi de perto o impacto emocional, psicológico e social dessa condição, muito para além da estética.

Mais tarde, em 2020, enfrentei um dos momentos mais desafiantes da minha vida: uma depressão pós-parto tardia. Foi uma experiência profunda e silenciosa. A privação de sono, o cansaço extremo e os desequilíbrios hormonais permitiram-me compreender, na prática, aquilo que durante anos estudei na teoria. Esses momentos moldaram a profissional e a mulher que sou hoje.

2. O que a motivou a aprofundar o trabalho com a saúde feminina e, em particular, com a regulação hormonal da mulher?

S.P: A minha motivação nasce da vivência pessoal e da escuta clínica diária. Na adolescência sofri intensamente com dores menstruais, sintomas que hoje sabemos não devem ser normalizados. Vivi uma depressão pós-parto, a maternidade após os 40 anos e, actualmente, enfrento uma peri-menopausa sintomática.

Ao recuperar da depressão pós-parto, percebi que muitas mulheres vivem sintomas semelhantes, dificuldade em emagrecer, ansiedade, fadiga e alterações de humor, mas em fases diferentes da vida e por causas distintas. Compreendi, então, que não bastava falar de alimentação ou peso. Era essencial olhar para a mulher como um todo.

A necessidade de alinhar os cinco pilares da saúde, sono, actividade física, alimentação estratégica com impacto hormonal positivo, gestão emocional e metabolismo, revelou-se a verdadeira chave para a saúde e a longevidade feminina.

Saúde feminina e a regulação hormonal

3. Como define a regulação hormonal e porque considera que este tema se tornou central na saúde da mulher?

S.P: A regulação hormonal é o equilíbrio funcional entre os diferentes sistemas hormonais, permitindo ao organismo feminino adaptar-se às exigências do dia-a-dia e manter saúde física, mental e emocional.

Este tema tornou-se central porque a mulher gere, ao longo da vida, três grandes ciclos hormonais: o reprodutivo, o do stress e o circadiano. Quando estes ciclos deixam de comunicar de forma harmoniosa, surgem sintomas frequentemente normalizados, mas que comprometem seriamente a saúde.

O desequilíbrio manifesta-se através de fadiga, ansiedade, alterações do peso, perturbações do sono, infertilidade funcional e maior risco de doenças metabólicas. Além disso, afecta o rendimento profissional e a qualidade de vida. Falar de regulação hormonal é, por isso, falar de bem-estar global e sustentabilidade da saúde feminina.

4. Quais são os principais sinais de desequilíbrio hormonal que observa com mais frequência?

S.P: Dificuldade persistente em emagrecer, aumento do perímetro abdominal, cansaço extremo, alterações do sono, ansiedade, ciclos menstruais irregulares, dificuldades em engravidar e baixa auto-estima.

5. De que forma a alimentação influencia o equilíbrio hormonal da mulher?

S.P: A alimentação tem um impacto profundo no equilíbrio hormonal, pois as hormonas dependem de nutrientes específicos para serem produzidas, activadas e eliminadas. Uma alimentação desequilibrada aumenta a inflamação, favorece a resistência à insulina e sobrecarrega o fígado e o intestino.

Por outro lado, uma alimentação estratégica, rica em nutrientes, fibra e gorduras de boa qualidade, ajuda a estabilizar a glicemia, reduzir o stress metabólico e apoiar o equilíbrio hormonal. Mais do que contar calorias, alimentar-se bem é criar condições para o corpo feminino funcionar em equilíbrio, respeitando os seus ciclos e fases de vida.

6. Que papel desempenham o sono, o stress e o estilo de vida na regulação hormonal da mulher?

S.P: Estes factores são absolutamente determinantes. A privação de sono desorganiza o ritmo circadiano, aumenta o cortisol e interfere no controlo do peso. O stress crónico mantém o organismo em alerta constante, comprometendo a fertilidade, o metabolismo e a saúde mental.

O estilo de vida funciona como o contexto onde todas as hormonas actuam. Quando é desajustado, mesmo a melhor estratégia nutricional perde eficácia. Quando é equilibrado, o corpo recupera a capacidade de se autorregular.

7. Como é feita a avaliação do perfil hormonal e porque é determinante?

S.P: O processo começa sempre pela escuta clínica. É fundamental compreender a história, os sintomas, o estilo de vida, o sono, o stress e o ciclo menstrual. Sempre que necessário, complementa-se com exames laboratoriais, que nunca devem ser analisados de forma isolada.

Esta etapa é decisiva porque cada mulher é única. Uma avaliação cuidada permite personalizar o acompanhamento, definir prioridades e criar estratégias eficazes e sustentáveis.

Emagrecimento consciente e bem-estar com regulação hormonal

8. Quais são os erros mais comuns nos métodos tradicionais de emagrecimento?

S.P: O principal erro é encarar o emagrecimento apenas como força de vontade, focando-se na restrição calórica e no exercício excessivo. Estes métodos ignoram a fisiologia hormonal feminina, aumentam o stress metabólico e favorecem o efeito ioiô.

Além disso, desvalorizam a saúde emocional, criando ciclos de culpa e frustração. O emagrecimento saudável acontece quando o organismo se sente seguro, nutrido e regulado.

9. Porque a regulação hormonal é uma alternativa mais sustentável?

S.P: Porque actua na causa e não apenas nos sintomas. Em vez de colocar o corpo em alerta, restaura o equilíbrio interno. No meu trabalho, isso é feito através de uma abordagem integrada: consultas personalizadas, suplementação específica, como a linha NutriCare, e formação prática em cozinha saudável.

Quando a mulher compreende o seu corpo e respeita os seus ciclos, o emagrecimento deixa de ser uma luta e torna-se um processo consciente e compatível com a vida real.

10. Que mitos considera mais prejudiciais no emagrecimento feminino?

S.P: O mito de que basta “comer menos e treinar mais” é um dos mais nocivos. Outro é normalizar sintomas como cansaço extremo, inchaço e alterações de humor. Também é urgente desconstruir a crença nas dietas extremas e soluções rápidas, que aumentam o stress metabólico e afastam a mulher da saúde.

11. Como trabalha a relação entre saúde emocional e comportamento alimentar?

S.P: A saúde emocional é sempre central. O comportamento alimentar é uma resposta ao estado interno da mulher. As consultas são também espaços de educação, onde explico os mecanismos de causa-efeito. Quando a mulher compreende o que se passa no seu corpo, deixa de se culpar e passa a agir com consciência.

12. Que conselhos práticos deixa às mulheres que lutam com a consistência?

S.P: Abandonar a perfeição é o primeiro passo. A consistência constrói-se com escolhas possíveis. Dormir melhor, reduzir o stress e adoptar rotinas simples são mais eficazes do que soluções rápidas. Emagrecer com saúde é um caminho, não um sprint.

Contexto angolano e impacto social

13. Como avalia o nível de informação das mulheres em Angola?

S.P: Ainda é muito desigual. Existe mais curiosidade e procura de informação, mas persistem mitos e normalização do sofrimento feminino. No entanto, observo uma mudança positiva e uma grande oportunidade de educação em saúde, com impacto nas famílias e na sociedade.

14. Que desafios existem na promoção de hábitos alimentares saudáveis?

S.P: O maior desafio é conciliar saúde com a realidade cultural, social e económica. A alimentação está ligada à tradição e exige abordagens adaptadas. Acredito na educação prática, valorizando alimentos locais e pequenas mudanças sustentáveis.

15. Qual o papel dos profissionais de saúde neste processo?

S.P: Os profissionais de saúde são agentes de educação e transformação social. Cabe-nos traduzir a ciência em informação acessível, combater mitos e promover prevenção. O impacto dessa actuação reflete-se no desenvolvimento do país.

Carreira e projectos futuros

16. Que impacto pretende gerar com os seus projectos?

S.P: Pretendo levar a saúde preventiva e a regulação hormonal para empresas e comunidades. Saúde, bem-estar e rendimento profissional estão interligados. O impacto que procuro é consciência, autonomia e mudança sustentável.

17. Que visão tem para o futuro da nutrição e que legado deseja deixar?

S.P: Vejo um futuro mais integrado e preventivo. Desenvolvi, em parceria, o projecto VENIS — Vida, Equilíbrio, Nutrição, Identidade e Saúde, direccionado às mulheres na peri-menopausa e menopausa, em articulação com a clínica NutriCare.

O legado que desejo deixar é um espaço de consciência e autonomia, onde as mulheres encontrem respostas, aprendam a cuidar de si e compreendam que a saúde não é um luxo, mas a base para viver com plenitude, impacto e propósito.

Cuidar da saúde feminina é um acto de consciência e autonomia.
Que temas gostaria de ver mais abordados sobre saúde da mulher no Mulheres.ao?

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