Ana Julante Constantino, especialista em cibersegurança e mentora do projecto Guardiões. faz abordagem sobre como a transformação digital alterou profundamente a forma como trabalhamos, educamos e protegemos as nossas famílias.

Nesse contexto, a cibersegurança deixou de ser um domínio exclusivamente técnico para assumir uma dimensão social e emocional. É nesta intersecção entre ciência e cuidado que se posiciona.

Profissional da área tecnológica e mãe, tem vindo a defender que o debate sobre protecção de dados precisa de sair dos ambientes técnicos e entrar na vida real das famílias.

Utilizador Digital Consciente: literacia digital feminina como urgência estratégica e responsabilidade individual

A pergunta que lançou publicamente — “De quem é a culpa quando os nossos dados pessoais são expostos?” — tornou-se ponto de partida para uma reflexão mais ampla sobre responsabilidade digital.

Se, por um lado, o Estado regula através da Lei 22/11 e da Agência de Protecção de Dados, e as organizações devem cumprir padrões técnicos rigorosos, por outro, existe um terceiro vértice muitas vezes negligenciado: o indivíduo.

Ana Julante defende que cada pessoa precisa compreender o seu nível de exposição e o seu apetite ao risco para definir uma estratégia de defesa proporcional.

“Não precisamos todos das mesmas trancas, mas todos precisamos de saber onde estão as nossas janelas abertas.”

Num país onde a internet ainda é, por vezes, percepcionada como espaço sem regras, a literacia digital assume-se como urgência estruturante.

Mulheres entre a sobrecarga e a vulnerabilidade digital

No caso das mulheres, o desafio assume contornos particulares.

Segundo a especialista, o maior problema actual não é a ausência de ferramentas, mas a sobrecarga cognitiva e a fadiga da decisão.

A mulher contemporânea gere múltiplas identidades digitais:

  • protege dados sensíveis no exercício profissional;
  • supervisiona o tempo de ecrã e a segurança dos filhos;
  • administra aplicações bancárias e comerciais para a logística doméstica.

Entretanto, o ritmo de exposição digital cresceu exponencialmente, enquanto o tempo disponível para configurar medidas de segurança permaneceu limitado.

O risco instala-se na conveniência: reutilização de palavras-passe, actualizações adiadas e decisões automáticas num ambiente desenhado para manter o utilizador em piloto automático.

O desafio é recuperar a intencionalidade.

Formação Utilizador Digital Consciente: da vigilância à mentoria digital

A proposta da UDC afasta-se de uma lógica de proibição e aposta na capacitação estruturada.

Para mães e chefes de família, isso significa compreender conceitos como autenticação de dois factores, gestão de identidade digital e controlo de privacidade.

“Quando uma chefe de família domina conceitos como a autenticação de dois factores ou a gestão de privacidade nas redes sociais, deixa de ser uma mera ‘vigia’ para se tornar uma mentora digital.”

A formação introduz princípios de governança aplicáveis ao ambiente doméstico: definição de políticas claras de utilização, leitura da pegada digital familiar e adopção de medidas proporcionais ao nível de exposição.

Num cenário marcado por grooming, ciberbullying e impacto do digital na saúde mental de menores, o conhecimento passa a ser ferramenta de protecção activa.

Ana Julante e o Utilizador Digital Consciente como vantagem para mulheres líderes

No universo das empreendedoras e líderes, a cibersegurança assume dimensão competitiva.

Um ataque informático ou o sequestro de uma conta pode comprometer não apenas receitas, mas reputação e continuidade operacional. Entre as competências prioritárias identificadas pela especialista estão:

  • gestão de identidade digital;
  • utilização de gestores de palavras-passe e chaves de segurança;
  • literacia de dados;
  • planeamento de contingência.

“Saber planear o ‘e se?’ é determinante. Se a sua conta for invadida hoje, como é que o seu negócio sobrevive amanhã?”

Para Ana Julante, a diferença entre vulnerabilidade e resiliência reside na preparação antecipada.

Ciência ao serviço da saúde mental e da família

O projecto Guardiões 2025: Protecção de Menores Online materializa essa visão integrada.

O evento reúne profissionais de cibersegurança, psicólogos clínicos, terapeutas, juristas, professores, especialistas em marketing e representantes da sociedade civil para discutir soluções completas.

A protecção digital deixa de ser apenas técnica e passa a ser também psicológica, educativa e comunitária.

Num dos momentos mais marcantes do evento, o encerramento incluiu um gesto simbólico de união e compromisso colectivo, reforçando que a segurança digital transcende tecnologia e toca valores, ética e propósito.

Ao posicionar a ciência como instrumento de cuidado, Ana Julante demonstra que tecnologia e bem-estar não são conceitos opostos.

Num mundo onde a exposição é permanente, formar mulheres conscientes pode ser um dos pilares mais sólidos para garantir segurança familiar e estabilidade social.

A literacia digital já não é opcional. E, no centro dessa transformação, a mulher informada assume-se como guardiã estratégica do futuro. Está preparada para liderar essa mudança?

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