Nara Machado tem vindo a construir um percurso marcado pela intersecção entre sustentabilidade, estratégia e impacto social em Angola. Reconhecida recentemente pela Forbes África Lusófona na categoria Agricultura, Transporte e Logística, a gestora vê a distinção como a validação de um trabalho desenvolvido com consistência, execução e compromisso com soluções sustentáveis para sectores estratégicos do país.

À frente da ALLORA, lidera projectos ligados a ESG, economia circular, inovação e desenvolvimento sustentável, com iniciativas que unem impacto ambiental, inclusão produtiva e capacitação comunitária. Entre elas, destaca-se o Papel Semente, um projecto que transforma resíduos em oportunidade económica e social, e o Fórum Nacional de Negócios Sustentáveis, espaço que tem promovido diálogo, colaboração e novas práticas empresariais em Angola.

Nesta entrevista ao Mulheres.ao, Nara Machado reflecte sobre liderança feminina, sustentabilidade, os desafios estruturais do país e a necessidade de transformar intenção em acção concreta. Ao longo da conversa, partilha também a sua visão sobre o futuro dos negócios sustentáveis em Angola e o papel das mulheres na construção de soluções com impacto real.

1. Quando olha para o seu percurso, que momentos sente que foram determinantes para se tornar a líder que é hoje?

N.M.: Há momentos que nos definem não pelo que conquistamos, mas pelo que decidimos aprender. Para mim, foram determinantes todos os instantes em que escolhi sentar-me à mesa dos mais experientes com humildade genuína, não para validar o que já sabia, mas para expandir o que ainda desconhecia. Observar o ritmo de transformação do mundo e perceber que Angola não poderia ficar de fora dessa conversa foi também um ponto de viragem. A consciência de que estamos inseridas num ecossistema global, e de que o nosso crescimento depende da nossa capacidade de aprender, adaptar e antecipar, moldou profundamente a líder que sou hoje.

2. A sua trajectória passa por instituições públicas e pelo sector privado. Que aprendizagens desses contextos moldaram a sua forma de liderar hoje?

N.M.: Esses dois contextos ensinaram-me que a excelência não depende do sector, mas das pessoas. Não importa quão bem estruturado seja um projecto, uma empresa ou uma instituição, se não tivermos as pessoas certas nos lugares certos, nada funciona. E quando digo “as pessoas certas”, refiro-me a toda a equipa: do técnico de limpeza ao conselho de administração.

Precisamos de equipas funcionais e complementares, com formação contínua e espaço real para troca de experiências. O sector público ensinou-me o peso da responsabilidade colectiva; o privado, a urgência da execução e da inovação. Hoje, levo os dois para tudo o que faço e garanto que as estratégias que desenvolvemos respondem a problemas reais, beneficiam as comunidades e nos posicionam como referências de excelência a nível global.

3. Em algum momento duvidou do caminho que estava a construir? O que a fez continuar?

N.M.: Angola é, por natureza, um país desafiador, e a sua história assim o comprova. Nunca duvidei do caminho que estava a trilhar, mas tive momentos de insegurança, sim. Seria desonesto dizer o contrário.

O que me manteve firme foi a força do ecossistema de pessoas que me rodeiam: mentores, parceiros, colaboradores e comunidades que acreditam que é possível fazer diferente. Cada vez que senti o chão tremer, foram essas conexões que me devolveram o equilíbrio. Acredito profundamente que não se lidera sozinha e que a persistência também se constrói a partir de quem escolhemos ter ao nosso lado.

4. Defende uma liderança consciente e intencional. Na prática, o que significa liderar com impacto real em Angola?

N.M.: Liderar com impacto real em Angola significa, antes de tudo, sair dos discursos e entrar na execução. Significa ser a primeira a fazer — não delegar o exemplo, mas incorporá-lo.

Desde o cumprimento do registo biométrico à entrega atempada dos relatórios anuais, cada acto de consistência comunica mais do que qualquer discurso. Num contexto exigente e com recursos muitas vezes escassos, a liderança intencional é aquela que cria condições reais para que as pessoas cresçam, transforma intenção em resultado mensurável e tem coragem de ser transparente, mesmo quando é difícil.

Impacto real não se anuncia — demonstra-se.

5. Que tipo de liderança acredita que Angola precisa neste momento, sobretudo quando pensamos nas novas gerações?

N.M.: Precisamos urgentemente de uma liderança inclusiva, transparente, consistente e empática. Os líderes lideram pessoas — seres humanos com sentimentos, desafios, famílias e uma vida para além do trabalho.

Uma vez que passamos grande parte do nosso tempo nos ambientes profissionais, temos também a responsabilidade de tornar esses espaços verdadeiramente saudáveis. Acredito que um ambiente de trabalho saudável já é, por si só, uma contribuição social relevante.

Para as novas gerações, precisamos de líderes que escutem antes de decidir, que criem espaço para o erro e para o crescimento, e que mostrem, através do exemplo, que é possível liderar com integridade e humanidade ao mesmo tempo.

6. Sendo uma mulher em posições estratégicas, que desafios ainda sente que persistem, mesmo em espaços de decisão?

N.M.: Os desafios existem, e seria ingénuo negá-los. Ainda hoje, uma mulher em posição de liderança precisa de demonstrar a sua competência com mais frequência e intensidade do que um homem na mesma função.

Há uma expectativa dupla: ser suficientemente assertiva para ser respeitada, mas suficientemente gentil para não “intimidar”. Esse equilíbrio é uma dança constante que os nossos pares masculinos raramente precisam de fazer.

Em Angola, o progresso é real e visível. Há cada vez mais mulheres em cargos de decisão, mas representatividade não é sinónimo de inclusão efectiva. O verdadeiro desafio não é entrar na sala; é ter a voz ouvida quando se chega lá.

7. Como nasce a ALLORA e que problema concreto se propôs a resolver desde o início?

N.M.: A ALLORA nasce de uma convicção: a de que Angola tem capacidade e talento para resolver os seus próprios problemas, mas que falta, muitas vezes, a ponte entre a visão estratégica e a execução efectiva.

Nasce da necessidade de criar essa ponte, de juntar pessoas, organizações e recursos em torno de propósitos comuns, com metodologias sólidas e resultados mensuráveis.

O problema concreto que nos propusemos resolver foi o da fragmentação: projectos isolados, boas intenções sem continuidade e estratégias sem implementação. A ALLORA SU, LDA existe para conectar, estruturar e transformar intenção em impacto real e sustentável.

Nara Machado fala sobre liderança, sustentabilidade, impacto social e o futuro dos negócios sustentáveis em Angola.

8. A ALLORA posiciona-se na intersecção entre estratégia, execução e impacto. Como transforma essa visão em projectos concretos?

N.M.: A chave está em nunca separar o pensamento da acção. Cada projecto começa com uma análise rigorosa do contexto: quem são os actores, quais são as necessidades reais e quais os recursos disponíveis.

Depois, desenhamos soluções que possam ser implementadas, medidas e escaladas. Trabalhamos sempre com parceiros locais, porque acreditamos que o impacto sustentável só é possível quando as comunidades são parte da solução e não apenas beneficiárias.

No terreno, isso traduz-se em programas de capacitação, fóruns de diálogo, iniciativas de economia circular e projectos que geram valor social e económico. Estratégia sem execução é ficção, e nós estamos no negócio da realidade.

9. O Fórum Nacional de Negócios Sustentáveis tem sido um espaço relevante de diálogo. Que impacto concreto já conseguiu gerar?

N.M.: O Fórum Nacional de Negócios Sustentáveis nasceu de uma convicção simples: a sustentabilidade só gera impacto real quando sai do discurso e entra na prática empresarial quotidiana.

O objectivo sempre foi criar um espaço de diálogo alinhado com aquilo que o país precisa e com os compromissos que Angola assumiu a nível nacional e internacional. Tudo o que desenvolvemos — das práticas ESG à economia circular, da medição de pegada de carbono ao apoio a startups verdes — contribui directamente para essa agenda nacional.

As mudanças são graduais, mas consistentes. Startups sem financiamento ou visibilidade encontraram no Fórum uma rede que lhes abriu portas. Projectos como o Papel Semente ganharam tracção a partir deste espaço.

O Fórum foi também palco do lançamento do serviço de medição, redução e compensação de pegada de carbono, aplicado ao próprio evento, tornando-o carbono neutro. O 2.º Fórum Nacional de Negócios Sustentáveis neutralizou 47 toneladas de CO₂, certificadas pelo Registo CDM da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas.

Hoje, vemos organizações que chegaram sem qualquer política ambiental a implementar práticas de gestão de resíduos e critérios de sustentabilidade nas suas operações. O que o Fórum confirma, edição após edição, é que Angola tem talento, projectos e vontade para liderar esta transição.

10. Onde é que ainda estamos a falhar enquanto empresas e sociedade quando falamos de sustentabilidade?

N.M.: Falhamos principalmente na coerência. Adoptamos a linguagem da sustentabilidade sem transformar verdadeiramente os modelos de negócio.

Publicamos relatórios de responsabilidade social, mas continuamos a tomar decisões focadas apenas no lucro de curto prazo. Em Angola, há ainda a percepção de que sustentabilidade é um “luxo” reservado a economias mais desenvolvidas. Esse mito precisa de ser desmontado.

A sustentabilidade não é opção — é sobrevivência.

Mas a responsabilidade não é apenas do sector privado. Precisamos urgentemente de um quadro regulatório nacional focado em desenvolvimento sustentável, com metas mensuráveis, incentivos e consequências claras.

E há uma dimensão ainda mais estrutural: a formação. Não podemos construir uma economia sustentável sem preparar as pessoas que a vão operar. A mudança real começa na sala de aula.

11. O Papel Semente tornou-se uma referência em Angola. O que diferencia esta iniciativa?

N.M.: O Papel Semente resolve vários problemas ao mesmo tempo — e é isso que o torna verdadeiramente diferente.

O projecto transforma resíduos de papel em matéria-prima, dando-lhes uma segunda vida com propósito. Mas vai além disso: cada folha contém sementes seleccionadas com intenção.

Há sementes ornamentais, que contribuem para o verde urbano, e sementes comestíveis, pensadas para hortas escolares e comunitárias, contribuindo para a alimentação e para programas de merenda escolar.

Existe também uma dimensão económica importante: quem produz este papel são as próprias comunidades. Estamos a criar uma cadeia de valor completa, que gera rendimento, capacitação e dignidade.

No fundo, o Papel Semente responde simultaneamente à gestão de resíduos, à qualidade ambiental, à segurança alimentar e à geração de rendimento comunitário.

12. Como garantir que projectos sustentáveis em Angola consigam escalar e gerar impacto contínuo?

N.M.: A resposta começa por reconhecer o que já existe. O Papel Semente já está no mercado há mais de um ano, sem financiamento externo, o que demonstra que o projecto é autossustentável e tem procura real.

O financiamento não representa sobrevivência — representa escala. Com recursos estruturados, podemos investir em equipamentos, especialização técnica e maior capacidade produtiva.

Mas para que projectos sustentáveis não morram na adolescência, são necessários três pilares: financiamento robusto, parcerias estratégicas e métricas claras de impacto.

Intenção sem estrutura é voluntarismo. Impacto sustentável exige profissionalismo.

13. O que representou, pessoal e profissionalmente, a distinção da Forbes África Lusófona?

N.M.: O reconhecimento da Forbes África Lusófona chegou num momento em que eu estava, como sempre, focada no trabalho — e isso diz muito sobre como encaro as distinções.

Não as persigo; recebo-as com gratidão, porque representam não apenas o meu esforço, mas também o de toda a equipa e dos parceiros que acreditaram na visão antes que ela se tornasse visível para outros.

Pessoalmente, representa a confirmação de que é possível liderar com propósito e ser reconhecida por isso. Profissionalmente, abre portas de diálogo, parceria e influência que permitem ampliar o impacto.

Mas o reconhecimento mais importante continua a ser o das comunidades com quem trabalhamos.

14. O que podemos esperar da ALLORA nos próximos anos?

N.M.: Os próximos anos serão de consolidação e expansão simultaneamente.

Queremos aprofundar o nosso impacto em Angola, chegar a mais províncias, trabalhar com mais comunidades e integrar mais empresas na nossa rede de negócios sustentáveis.

Ao mesmo tempo, queremos crescer regionalmente, levando o modelo ALLORA para outros países africanos de língua portuguesa, onde identificamos necessidades e oportunidades semelhantes.

Temos também projectos estruturantes nas áreas de educação para a sustentabilidade e capacitação de lideranças femininas, porque acredito que o futuro de África passa, em grande medida, pelas mulheres que hoje estamos a preparar para liderar amanhã.

15. Que mensagem deixaria às jovens mulheres angolanas que querem liderar, mas ainda sentem que precisam “de espaço” para começar?

N.M.: A primeira coisa que diria é: o espaço não se pede — constrói-se. E começa por se construir dentro de nós mesmas, na certeza de que temos valor, perspectiva e capacidade únicos para oferecer.

Não esperem validação externa para começar. Comecem onde estão, com o que têm, e façam-no com excelência.

A segunda coisa é: escolham as vossas comunidades com cuidado. Rodear-se de mulheres que se elevam mutuamente não é apenas bonito — é estratégico.

E talvez o mais importante: não tenham medo de ocupar a sala. Não apenas de entrar nela, mas de ocupá-la com a vossa voz, ideias e visão.

O mundo está a mudar, e Angola está a mudar com ele. As lideranças que vão definir o próximo capítulo deste país serão, em grande parte, femininas, não porque esse lugar nos será oferecido, mas porque o estamos a construir todos os dias.

Ao longo da entrevista, Nara Machado reforça a importância de transformar intenção em execução, sustentabilidade em prática e liderança em impacto real. Entre projectos de economia circular, fóruns de negócios sustentáveis e iniciativas focadas na capacitação e inclusão, a gestora defende uma visão de desenvolvimento onde estratégia, comunidade e responsabilidade caminham lado a lado.

Num contexto em que Angola procura consolidar novos modelos de crescimento e inovação, o percurso da ALLORA evidencia o papel que lideranças femininas podem assumir na construção de soluções sustentáveis, escaláveis e alinhadas com os desafios do futuro.

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