Durante muito tempo, muitas mulheres aprenderam a lidar com dores, irritabilidade e mudanças de humor antes da menstruação como algo “normal”. Mas a verdade é que nem tudo o que acontece nesse período deve ser ignorado.
O Transtorno Disfórico Pré-Menstrual (TDPM) é uma condição clínica associada ao ciclo menstrual que provoca sintomas físicos e emocionais intensos nos dias que antecedem a menstruação. E, apesar de afectar a vida de muitas mulheres, continua pouco falado e, muitas vezes, não diagnosticado em Angola.
Mais do que desconforto, o TDPM pode interferir directamente no trabalho, nas relações e na qualidade de vida.
Quando o corpo e as emoções deixam de estar em equilíbrio
Ao contrário da síndrome pré-menstrual comum, o TDPM apresenta sintomas mais intensos e difíceis de gerir no dia-a-dia.
Fisicamente, podem surgir sinais como inchaço, dor mamária, dores de cabeça e uma fadiga persistente. Mas é no campo emocional que o impacto se torna mais evidente: tristeza profunda, ansiedade, irritabilidade extrema e uma sensação constante de instabilidade.
Há ainda quem enfrente alterações no sono, perda de interesse pelas actividades habituais ou dificuldades de concentração. Em situações mais graves, podem surgir pensamentos negativos intensos, o que exige acompanhamento médico imediato.
Segundo a American Psychiatric Association, o TDPM afecta entre 3% a 8% das mulheres em idade reprodutiva, um número que reforça que, embora não seja tão comum como a TPM, o seu impacto é real e significativo.
Diagnóstico ainda é um caminho pouco percorrido
Identificar o Transtorno Disfórico Pré-Menstrual em Angola ainda é um desafio. Muitas mulheres não associam os sintomas ao ciclo menstrual e, por isso, acabam por não procurar ajuda.
O diagnóstico exige uma observação atenta: os sintomas surgem dias antes da menstruação, repetem-se ao longo dos ciclos e tendem a desaparecer após o início do período.
De acordo com o DSM-5, é necessário identificar pelo menos cinco sintomas — sendo um deles de natureza emocional, para confirmar o quadro clínico. O registo mensal dos sintomas pode ajudar muito neste processo, mas ainda não é uma prática comum.
E há um ponto importante: a ausência de dados oficiais em Angola não significa que o problema não exista, pode, na verdade, indicar que muitas mulheres continuam sem diagnóstico.
O que está por trás do TDPM
As causas do TDPM estão ligadas às alterações hormonais naturais do ciclo menstrual, sobretudo às variações de estrogénio e progesterona.
Estas hormonas influenciam directamente o funcionamento do cérebro, afectando neurotransmissores como a serotonina, responsável pelo equilíbrio emocional.
Em algumas mulheres, o organismo reage de forma mais sensível a essas mudanças, e é isso que desencadeia os sintomas.
Ou seja, não é exagero nem fraqueza: é uma resposta biológica que precisa de ser compreendida.
Tratamento: um caminho possível
A boa notícia é que o TDPM tem tratamento e pode ser controlado com acompanhamento adequado.
As abordagens variam de acordo com cada caso e podem incluir psicoterapia, prática regular de exercício físico, ajustes na alimentação e, em situações mais complexas, medicação.
O acompanhamento multidisciplinar tem mostrado resultados positivos, ajudando a reduzir os sintomas e a melhorar a qualidade de vida.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reforça que a saúde mental deve ser tratada como parte essencial da saúde global, o que inclui condições como o TDPM.
Falar sobre menstruação também é cuidar da saúde
Em Angola, falar sobre menstruação ainda é, muitas vezes, um tema sensível. Durante anos, o sofrimento associado ao ciclo foi normalizado, e isso contribuiu para que muitas mulheres não procurassem ajuda.
Hoje, o desafio passa por mudar essa realidade. Promover informação, reforçar a literacia em saúde e integrar a saúde menstrual nas políticas públicas são passos fundamentais para garantir que mais mulheres tenham acesso a diagnóstico e tratamento.
O Transtorno Disfórico Pré-Menstrual não é apenas uma “TPM mais intensa”. É uma condição que afecta o corpo, a mente e o dia-a-dia de muitas mulheres.
Reconhecer os sinais, procurar ajuda e falar sobre o tema são passos importantes, não só para quem vive com o TDPM, mas para toda a sociedade.
Falar sobre saúde feminina é também uma forma de cuidar. Partilhe este conteúdo e continue a acompanhar o Mulheres.ao para mais temas que fazem a diferença.
