Depois de vários anos a construir o seu percurso artístico de forma discreta, a artista plástica angolana Ainid Clélia apresenta a sua primeira exposição individual, Grutas, Desertos e Oásis. Mais do que uma mostra de pintura, o projecto convida o público a percorrer um itinerário de memória, transformação e esperança.
Com um percurso marcado pelas vivências entre Angola, Estados Unidos da América e África do Sul, a artista desenvolveu uma linguagem visual onde a experiência humana ocupa um lugar central. As suas obras cruzam pintura, palavra e emoção, propondo uma reflexão sobre os processos de cura, identidade e crescimento.
Nesta entrevista ao Mulheres.ao, Ainid Clélia fala sobre o caminho que a conduziu à arte, os desafios do sector artístico em Angola, o significado da sua primeira exposição individual e o legado que pretende construir através do seu trabalho.
Vida e trajectória
1. Para começar, quem é a Ainid Clélia para além da artista plástica?
Ainid Clélia (A.C): Para além da artista, sou alguém profundamente movida pela curiosidade e pela procura de significado. Gosto de observar pessoas, ouvir histórias e encontrar beleza naquilo que muitas vezes passa despercebido. Sou também poetisa, apaixonada pela palavra, pelo design de interiores e por tudo o que cria ambientes de calma e presença.
A minha fé é um alicerce importante da forma como vivo e crio, e acredito que a arte é uma extensão daquilo que somos quando aprendemos a escutar o coração.
2. Cresceu entre Angola, os Estados Unidos e a África do Sul. De que forma essas diferentes experiências influenciaram o teu olhar sobre o mundo e sobre a arte?
A.C: Cada país deixou uma marca diferente em mim. Angola deu-me identidade, pertença e memória. Os Estados Unidos ensinaram-me a pensar sem medo de sonhar grande. A África do Sul despertou o meu olhar para o design, para a diversidade cultural e para diferentes formas de expressão artística.
Hoje percebo que a minha linguagem visual nasce precisamente desse encontro entre mundos diferentes.
3. A tua obra parte frequentemente da memória, das emoções e da experiência humana. Quando percebeste que a arte seria a linguagem através da qual querias comunicar?
A.C: Foi um processo gradual. Durante muito tempo escrevia aquilo que não conseguia dizer em voz alta. Mais tarde percebi que algumas emoções já não cabiam apenas nas palavras.
A pintura tornou-se um segundo idioma. Hoje, muitas vezes, começo uma obra sem saber exactamente o que ela quer dizer e termino a compreendê-la ao mesmo tempo que quem a observa.
4. O teu percurso tem sido construído com consistência e discrição. Houve algum momento em que sentiste que tudo poderia ter seguido um caminho diferente?
A.C: Vários. Como acontece com muitos artistas, existiram momentos de dúvida, de silêncio e de espera. Durante muito tempo também fugi deste caminho porque não tinha referências próximas de pessoas que respiravam arte e conseguiam viver dela com estabilidade.
Era difícil imaginar um futuro quando não via exemplos suficientemente perto de mim.
Mas acredito que nem todos os caminhos se constroem com rapidez. Alguns precisam de maturação. Olhando para trás, percebo que aquilo que parecia atraso estava, na verdade, a preparar-me para criar com mais verdade.
Hoje entendo que, por vezes, antes de nos tornarmos referência para alguém, precisamos de aceitar caminhar sem ter muitas referências à nossa frente.
Trabalho e impacto
5. “Grutas, Desertos e Oásis” marca a tua primeira exposição individual. Como nasceu este projecto e porque sentiste que este era o momento certo para o apresentar ao público?
A.C: Este projecto nasceu há quase seis anos, enquanto atravessava um processo muito pessoal de transformação. Comecei a perceber que todos nós passamos por lugares escuros, por tempos de espera e, felizmente, por momentos de renovação. A exposição foi crescendo à medida que eu também crescia.
Chegou um momento em que senti que era tempo de deixar de me esconder e de fechar esse capítulo da minha vida. Quis honrar o meu processo de cura e o percurso criativo que o acompanhou, transformando-o numa experiência onde outras pessoas também se pudessem rever, reconhecer e reencontrar.
Não apresentei esta exposição porque encontrei todas as respostas, mas porque aprendi que a vulnerabilidade também pode ser um lugar de encontro. Se as minhas grutas, os meus desertos e o meu oásis ajudarem alguém a compreender melhor os seus próprios, então este projecto já cumpriu uma parte do seu propósito.
6. O título desperta curiosidade antes mesmo de se conhecerem as obras. O que representam, para ti, as grutas, os desertos e os oásis?
A.C: As grutas representam os lugares interiores onde enfrentamos a dor, o luto, o medo e o desconhecido. Com o tempo, compreendi que elas também representam um período de gestação: um lugar escuro, silencioso e, ao mesmo tempo, profundamente fértil, onde algo novo está a ser formado antes de vir à luz.
Os desertos simbolizam os períodos de silêncio, espera e transformação. São lugares onde aprendemos a permanecer, mesmo quando tudo parece árido e sem respostas.
Os oásis lembram-nos que a esperança existe e que a vida encontra sempre formas de florescer. Mais do que lugares físicos, são estados da alma pelos quais todos passamos e que fazem parte da nossa jornada de crescimento.
7. O que pode o público esperar encontrar nesta exposição para além das pinturas? Que conversa gostarias que acontecesse entre as obras e quem as observa?
A.C: Espero que encontrem um espaço para sentir, desacelerar e reflectir. A exposição foi pensada como uma experiência imersiva, onde imagem, palavra, som e ambiente dialogam entre si.
Gostava que cada visitante saísse com menos respostas prontas e mais perguntas importantes sobre si próprio.
8. Ao longo da preparação desta exposição, houve alguma obra que te desafiou ou surpreendeu mais do que esperavas? Porquê?
A.C: Sim. Algumas obras obrigaram-me a revisitar emoções que julgava ultrapassadas. Mas houve uma, em particular, que acabou por acompanhar o meu próprio processo de cura: All That Lives Forever (Mafumeira).
Ela foi cicatrizando comigo. Começou profundamente marcada pelo preto, pelo luto e pela ausência. Com o tempo, foi-se transformando e deixando surgir o verde, como um símbolo de vida, renovação e esperança.
Percebi que a dor não desaparece necessariamente; ela aprende a coexistir com a esperança.
Houve momentos em que pintar significou voltar a sentir. Foi desafiante, mas também profundamente libertador. Descobri que a arte não serve apenas para revelar beleza; serve também para reconciliar-nos com a nossa própria história.
9. Como descreves o momento que vive actualmente a arte contemporânea em Angola?
A.C: Vejo uma geração extremamente talentosa e cada vez mais aberta ao diálogo com o mundo. Há mais iniciativas, mais espaços de exposição e mais interesse do público.
Ainda assim, continuam a existir desafios relacionados com financiamento, formação, internacionalização e valorização do trabalho artístico. Acredito que estamos a construir um ecossistema cada vez mais sólido, mas ainda há muito caminho pela frente.
10. Enquanto mulher artista, sentes que o teu percurso foi influenciado pelo facto de seres mulher?
A.C: Ser mulher influencia inevitavelmente a forma como experienciamos o mundo e, consequentemente, a forma como criamos.
Felizmente encontrei pessoas que acreditaram no meu trabalho, mas também senti que, por vezes, ser uma mulher cristã parecia acrescentar uma camada de complexidade.
Gostava de ver um sector onde houvesse mais espaço para artistas de diferentes gerações, diferentes linguagens e diferentes visões do mundo. A arte torna-se mais rica precisamente quando há diversidade de vozes e quando cada artista pode criar com autenticidade.
Sociedade e futuro
11. Que papel acreditas que a arte pode desempenhar numa sociedade como a angolana?
A.C: A arte ajuda-nos a imaginar futuros possíveis. Preserva memórias, provoca conversas difíceis e aproxima pessoas que talvez nunca partilhassem o mesmo espaço.
Numa sociedade em constante transformação, acredito que a arte pode ser um lugar de encontro, de cura e de construção colectiva.
12. Se uma jovem artista te dissesse hoje que tem talento, mas receio de seguir este caminho, que conversa gostarias de ter com ela?
A.C: Dir-lhe-ia que talento é apenas o ponto de partida. O que sustenta uma carreira é a disciplina, a coragem para continuar quando ninguém está a ver e a humildade para aprender continuamente.
Não esperes sentir-te completamente preparada para começar. Crescemos precisamente enquanto caminhamos.
13. Quando imaginas o futuro, que legado gostarias de deixar através da tua obra e da tua presença na arte angolana?
A.C: Gostaria que as minhas obras continuassem a lembrar às pessoas que a vulnerabilidade também é força e que a esperança pode coexistir com a dor.
Se, daqui a muitos anos, alguém encontrar uma das minhas pinturas e sentir que foi compreendido, consolado ou inspirado a continuar, acredito que esse será o legado mais bonito que poderia deixar.
Identidade e humanidade
14. Fora do atelier, o que ocupa o teu tempo e ajuda a manter o equilíbrio entre a criação artística e a vida pessoal?
A.C: Amo pesquisar sobre diferentes temas, ler, escrever poesia, cozinhar para quem amo e passar tempo de qualidade com as pessoas que me são mais próximas.
Também encontro equilíbrio na natureza, na música e na contemplação.
Aprendi que o descanso faz parte do processo criativo e que viver bem também é uma forma de alimentar a arte. Quanto mais presente estou na vida, mais verdadeira se torna a minha criação.
15. Existe algum sonho ou projecto que ainda aguardas pelo momento certo para concretizar?
A.C: Existem vários. Gostaria de levar o meu trabalho para outros países, desenvolver projectos de arte e educação, publicar livros e criar experiências que unam pintura, poesia, música e espaço.
Acredito muito em projectos interdisciplinares que aproximem pessoas através da sensibilidade.
Através de Grutas, Desertos e Oásis, Ainid Clélia convida o público a olhar para a arte como um espaço de reflexão, vulnerabilidade e esperança. A exposição marca um novo capítulo no percurso da artista e reforça o papel da criação artística na construção de diálogos sobre identidade, memória e transformação.
E tu, acreditas que a arte pode ajudar-nos a compreender melhor as nossas próprias experiências e emoções? Partilha a tua opinião nos comentários.






