Coordenadora Nacional da AfriYAN Angola, co-fundadora da Cooperativa Nayuka e consultora da UNICEF Angola na área de Protecção da Criança, Yolanda Miguel Monteiro construiu um percurso que cruza liderança juvenil, impacto social e empreendedorismo feminino. Nesta entrevista, fala sobre escutismo, pobreza menstrual, saúde sexual e reprodutiva, os desafios de ser mulher líder em Angola, e o sonho que nasceu durante a pandemia e já chegou a mais de 45 mil meninas.

Quem é Yolanda Monteiro antes dos títulos e das causas

1. Quem é Yolanda Miguel Monteiro para além dos títulos e cargos que ocupa actualmente?

Yolanda Monteiro (Y.M):
É uma jovem benguelense residente em Luanda, casada, mãe de um filho, empreendedora e com muitos sonhos. Uma mulher tranquila, mas muito exigente consigo mesma e com os seus, que ambiciona que as vozes dos adolescentes e jovens sejam ouvidas e os seus direitos efectivamente realizados. Alegre, de fácil trato, mas que corre atrás dos seus objectivos com muita determinação. Deixa-se conduzir pela orientação Divina, acreditando que os planos de Deus são maiores que os nossos.

2. O que despertou em si o interesse pelo impacto social, pela juventude e pela responsabilidade social?

Y.M: Tudo começou aos 6 anos, quando entrou para o movimento escutista na Associação de Escuteiros de Angola. Foi aí que aprendeu que o mais forte deve proteger o mais fraco, e nasceu a génese no associativismo. Com o tempo, trabalhar com jovens deixou de ser apenas um campo de actuação e passou a ser uma causa. A responsabilidade social surgiu quando começou a questionar: “E depois do impacto imediato, o que fica?” Foi então que começou a trabalhar também na construção de instrumentos sustentáveis para o sector juvenil.

3. Qual foi o maior desafio da sua trajectória como jovem líder em Angola?

Y.M:
Chegar à Vice-Presidência do Conselho Nacional da Juventude como escuteira, mulher e jovem vinda de Benguela. Encontrou muitas limitações ligadas à forma como a liderança feminina ainda era vista em alguns espaços. Ouviu várias vezes: “O país ainda não está preparado para uma mulher presidente do CNJ.” E aquilo marcou-a profundamente, porque não queria apenas ocupar um cargo, queria provar que competência, visão e capacidade de liderança não têm género. Provou-o através do trabalho, da consistência e dos resultados.

“Não queria apenas ocupar um cargo. Queria provar que competência, visão e
capacidade de liderança não têm género.”

4. Como define o seu estilo de liderança?

Um estilo muito natural, que nasceu e sente todos os dias como uma força involuntária de fazer
acontecer. Nunca gostou de impor presença ou autoridade. Prefere inspirar através do exemplo,
da forma como trabalha e da capacidade de encontrar soluções nos momentos mais difíceis.
Procura perceber cada situação antes de agir, ouvir as pessoas e construir em conjunto. “Uma
boa liderança não se mede pela quantidade de pessoas que te seguem, mas pela quantidade de
líderes que consegues formar ao longo do caminho. Eu nasci para liderar, mas lidero para servir.”

O papel da nova geração na transformação de Angola

5. Qual é o papel da juventude na transformação social e económica de Angola?

Y.M: A juventude não é apenas o futuro, é o presente activo de Angola. São os jovens que têm
energia, criatividade e força para mudar mentalidades. Mas precisam primeiro de voltar a acreditar em si mesmos e no país que estão a construir. Muitos cresceram a ouvir “isso não é para ti” ou “sem influência não consegues”, e isso vai destruindo sonhos silenciosamente. O verdadeiro desafio não é apenas a falta de oportunidades: é fazer com que os jovens acreditem que também podem ocupar esses espaços e transformar realidades.

6. Que competências considera essenciais para um jovem que deseja trabalhar com impacto social?

Y.M: Liderança, conhecimento técnico, comunicação, pensamento crítico, inteligência emocional e capacidade de ouvir as comunidades. Mas acima de tudo: compromisso verdadeiro com as
pessoas e com a causa que se defende. Impacto social não pode ser moda, tem de ser missão.
Claro que os projectos precisam de sustentabilidade financeira, mas antes do dinheiro é preciso
mostrar entrega, competência, transparência e capacidade de gerar impacto real nas
comunidades.

“Impacto social não pode ser moda. Tem de ser missão.”

Trabalhar com as realidades mais duras da infância angolana

7. Como tem sido a experiência de trabalhar na UNICEF Angola na área de Protecção da
Criança?

Y.M: Começou como consultora para desenvolver uma radionovela sobre saúde dos adolescentes, mas foi-se aproximando cada vez mais da Protecção da Criança — e hoje tornou-se uma nova paixão. Apoia programas como o Minha Kamba, com foco na prevenção, protecção, saúde sexual e
reprodutiva e bem-estar da criança. Trabalhar nesta área em Angola é muito desafiante, pois
lidamos com situações extremamente sensíveis: desde crianças violadas por quem devia
protegê-las, a mães que abandonam os filhos. Falta ainda muito humanismo na forma como
olhamos para a protecção da criança.

8. Que avanços Angola já alcançou na defesa dos direitos da criança?

Y.M: Angola deu passos muito importantes: avanços ao nível dos instrumentos legais de protecção, das políticas públicas, das linhas de denúncia contra violência doméstica, de campanhas de sensibilização e de programas de saúde sexual e reprodutiva alinhados à Agenda 2030. Instituições como o INAC, o Ministério da Acção Social e a UNICEF têm desempenhado um papel fundamental. O maior avanço, porém, tem sido percebermos que nenhuma instituição consegue resolver estes problemas sozinha, a articulação entre governo, organizações, parceiros e comunidades é o que cria impacto sustentável.

9. Hoje fala-se muito sobre ESG. O que representa na prática, no contexto angolano?

Y.M: ESG representa responsabilidade verdadeira e compromisso com as pessoas — não uma
tendência empresarial ou algo bonito para relatórios de marketing. As empresas devem gerar
impacto social, respeitar o meio ambiente, actuar com ética e investir nas comunidades onde
estão inseridas. Em Angola já existem avanços positivos, mas ainda precisamos sair da lógica de
acções pontuais e passar para soluções sustentáveis. Se todas as empresas implementassem
verdadeiramente a sua responsabilidade social, muitos dos problemas sociais seriam reduzidos e
estaríamos todos a construir soluções juntos.

Uma rede africana, um impacto local

10. O que representa a Rede AfriYAN Angola?

Y.M: Um dos maiores ganhos da sua vida dentro do associativismo e da liderança juvenil. Mais do que uma organização, tornou-se uma missão e um espaço de transformação real na vida dos
adolescentes e jovens. A AfriYAN é uma rede regional africana presente em mais de 25 países,
que trabalha nas áreas de saúde sexual e reprodutiva, direitos juvenis, participação activa e
desenvolvimento comunitário. A AfriYAN ensinou algo muito importante: a juventude africana tem capacidade para criar soluções para os seus próprios desafios.

11. Como lidar com o tabu da saúde sexual e reprodutiva em Angola?

Y.M: Angola enfrenta ainda muitas barreiras culturais, sociais e religiosas nesta matéria. O silêncio é que muitas vezes expõe os jovens a maiores riscos, gravidez precoce, violência sexual,
abandono escolar. Uma criança que conhece o seu corpo também consegue proteger-se melhor.
É preciso deixar de tratar estes temas como vergonha e encará-los como educação e protecção.
Saúde sexual e reprodutiva não é apenas falar de sexo, é falar de protecção, dignidade,
autoconhecimento e futuro. “Informação não corrompe, protege.”

“Informação não corrompe, protege. Quanto mais conhecimento tivermos sobre
nós mesmos, mais preparados estaremos para fazer escolhas conscientes.”

A cooperativa que nasceu da pandemia e chegou a 45 mil meninas

12. Como nasceu a Nayuka?

Y.M: Nasceu durante a COVID-19, num momento em que muitas meninas deixaram de ter acesso até ao básico, incluindo pensos higiénicos. Começou com a campanha “Dois em Um”, uma pessoa doava dois pacotes de pensos para garantir a segurança menstrual de uma menina durante dois meses. Mas perceberam que dependiam constantemente de doações. Assim, ela e a Hwimma Rodrigues Mavinga pesquisaram alternativas sustentáveis e nasceu a Cooperativa Nayuka. “Nayuka” significa “ganhamos” na língua tchokwe, e o lema é: ganhamos todos no combate à pobreza menstrual.

13. Qual o impacto da Nayuka até hoje?

Y.M: Já beneficiaram mais de 45 mil meninas e famílias, com duas cooperativas, uma em Luanda e outra no Namibe, que produzem mais de 2.000 pensos reutilizáveis por mês. O maior impacto
tem sido devolver dignidade: em Angola, muitas meninas faltam à escola durante o período
menstrual por não terem produtos adequados. Em cada 5 meninas, pelo menos 3 acabam por
reprovar ou ter baixo rendimento escolar. O verdadeiro impacto não está apenas no penso — está
na possibilidade de uma menina voltar à escola, participar normalmente das suas actividades e
sentir-se segura.

14. Qual é agora o maior desafio da Nayuka?

Y.M: Expandir o projecto e garantir matéria-prima para que mais meninas possam viver a sua
menstruação com dignidade. Foi por isso que criaram a cooperativa no Namibe com o apoio do
Banco BFA, aproximando a produção das comunidades mais vulneráveis. Prestaram também
consultoria ao Governo Provincial de Luanda para a criação do Projecto MAME. Trabalham ainda
em parceria com o Ministério da Acção Social em formações sobre higiene menstrual em várias
províncias. O objectivo é criar cooperativas locais para que as próprias comunidades produzam os seus pensos e garantam sustentabilidade.

COMUNICAÇÃO, LIDERANÇA E FUTURO

15. Como a comunicação contribui para a transformação social?

Y.M: A comunicação tem um poder enorme de transformação, principalmente num país como Angola, onde a informação muitas vezes ainda não chega de forma clara e humanizada às comunidades. Não basta criar programas e políticas públicas, é preciso saber comunicar com as pessoas, principalmente com os adolescentes e jovens. Através da rádio, campanhas comunitárias, redes sociais e conferências é possível informar, educar, sensibilizar e mobilizar. Quando a informação chega com responsabilidade e sensibilidade, ela transforma mentalidades e muda vidas.

16. Como está, de facto, o espaço da mulher angolana na liderança? Há progresso real ou ainda é muito discurso?

Y.M: Há progresso real, mas ainda não é proporcional ao talento que existe. Vemos mais mulheres angolanas a liderar iniciativas de grande impacto, mas ainda existe uma diferença clara entre estar presente e ter poder de decisão. Em muitos contextos, as mulheres continuam a precisar de provar mais, entregar mais e errar menos para alcançar o mesmo reconhecimento. A verdadeira mudança acontecerá quando deixarmos de celebrar a presença de mulheres em cargos de liderança como uma excepção e passarmos a vê-la como algo absolutamente normal.

17. O que diria às mulheres que nos lêem agora, no início da carreira, no meio, ou a pensar em desistir?

Y.M: Que os planos de Deus são maiores que os nossos, mas é preciso continuar em frente. Muitas
vezes o que precisa de mudar não é o sonho, é a forma como estamos a tentar alcançá-lo. Às
que estão no início: ocupem espaço antes de se sentirem totalmente preparadas. Às que estão
cansadas: não sacrifiquem tudo para provar alguma coisa a alguém. E a todas: os maiores
resultados surgem quando as pessoas trabalham com propósito genuíno. Quando uma menina
tem dignidade e um jovem encontra oportunidade, uma comunidade inteira transforma-se.

“A verdadeira mudança acontecerá quando deixarmos de celebrar a presença de
mulheres em liderança como uma excepção e passarmos a vê-la como algo
absolutamente normal.”

18. Que competências considera indispensáveis para quem quer trabalhar com causas sociais em Angola hoje?

Y.M: Além das competências técnicas, gestão de projectos, comunicação, mobilização de recursos, é fundamental ter propósito claro e resistência emocional. O trabalho social expõe-nos a realidades muito duras e é fácil perder o fio condutor quando os resultados demoram a aparecer. Também é essencial saber trabalhar em parceria, porque nenhuma organização resolve problemas estruturais sozinha. E, acima de tudo, é preciso manter a humildade de aprender com as próprias comunidades, elas conhecem os seus problemas melhor do que qualquer especialista externo.

19. Que legado gostaria de deixar?

Y.M:
Um legado de transformação e esperança. Não apenas projectos implementados, mas vidas verdadeiramente impactadas e comunidades mais conscientes, inclusivas e humanas. Sonha com uma Angola onde os jovens acreditem no seu potencial, onde nenhuma menina perca a sua dignidade por causa da pobreza menstrual e onde falar de saúde, igualdade e direitos deixe de ser tabu. Gostaria que o seu trabalho fosse lembrado como uma contribuição para abrir caminhospara outras meninas e jovens, mostrando que é possível criar soluções locais para problemas reais, com empatia, coragem e propósito. “O verdadeiro legado não está no que construímos para nós, mas no impacto que deixamos na vida dos outros.”

Yolanda Miguel Monteiro é Coordenadora Nacional da AfriYAN Angola, co-fundadora da
Cooperativa Nayuka e consultora da UNICEF Angola na área de Protecção da Criança. Com
passagem pela Vice-Presidência do Conselho Nacional da Juventude e pela Direcção Adjunta do Instituto Angolano da Juventude, contribuiu para a elaboração da Política Nacional da Juventude e da Lei do Voluntariado em Angola. É uma das vozes de referência na liderança juvenil, saúde sexual e reprodutiva e impacto social no país.

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