Antiga capitã da Selecção Nacional Feminina, melhor jogadora da COSAFA em 2008 e actual Vice-Presidente da Federação Angolana de Futebol, Irene Gonçalves construiu um percurso que atravessa diferentes dimensões do desporto. Começou a jogar profissionalmente aos 14 anos, tornou-se uma das maiores goleadoras do futebol feminino angolano e, depois de deixar os relvados, passou pela docência, gestão desportiva, coordenação de equipas femininas e administração do futebol.
Licenciada em Gestão de Empresas, pós-graduada em Economia e Gestão Desportiva e formada como instrutora da Confederação Africana de Futebol, Irene Gonçalves alia a experiência competitiva ao conhecimento técnico e administrativo. Agora, integra a equipa de comentadores da ZSports para a cobertura do Mundial FIFA 2026, onde pretende levar aos telespectadores uma análise próxima, transparente e sustentada por vários anos de experiência dentro e fora das quatro linhas.
1. Como gostaria de ser apresentada, tanto a nível pessoal como no âmbito do programa “A Casa do Mundial”?
I.G. R: Gostaria de ser apresentada como dirigente desportiva e comentadora. No entanto, esta apresentação também representa um percurso que começou muito antes da televisão e da gestão. Fui futebolista profissional, capitã de equipas e da Selecção Nacional, coordenadora de futebol feminino e gestora desportiva. Actualmente, exerço funções como Vice-Presidente da Federação Angolana de Futebol. Por isso, considero-me uma profissional que conhece o futebol em diferentes dimensões e que continua profundamente ligada à modalidade.
2. Que momentos da sua carreira como futebolista considera mais marcantes e que melhor definem o seu percurso?
I.G. R: Sem dúvida, ser capitã da Selecção Nacional foi um dos momentos mais importantes da minha carreira. Representar Angola já era uma grande responsabilidade, mas liderar a equipa dentro do campo tornou essa experiência ainda mais especial.
Além disso, guardo com muito orgulho a participação no Campeonato Africano das Nações Feminino de 2002, na Nigéria, onde marquei o primeiro golo de Angola numa fase final da competição. Mais tarde, em 2008, fui eleita Melhor Jogadora da COSAFA e, nesse mesmo ano, marquei 22 golos num único jogo do Campeonato Nacional Feminino. Foi a partir desse resultado que passei a ser conhecida como “Demolidora”.
Ao longo do percurso, conquistei também quatro Campeonatos Nacionais, oito Taças de Angola e sete Taças Regionais de Luanda. Fui melhor marcadora regional por sete vezes e melhor marcadora da Taça de Angola em seis ocasiões. Cada uma destas conquistas representa disciplina, trabalho colectivo e muitos anos de dedicação ao futebol.
3. O que motivou a Irene Gonçalves a fazer a transição dos relvados para os comentários e a análise de futebol?
I.G. R: Acima de tudo, foi o amor pelo futebol. Mesmo depois de terminar a carreira como atleta, sempre soube que queria continuar ligada à modalidade. A gestão desportiva permitiu-me trabalhar na organização e no desenvolvimento do futebol, enquanto os comentários me deram a oportunidade de partilhar a experiência acumulada dentro dos relvados.
Por outro lado, a minha formação em Gestão de Empresas, Economia e Gestão Desportiva ajudou-me a compreender o futebol para além da competição. Hoje, consigo observar não apenas aquilo que acontece durante os jogos, mas também as decisões estratégicas, a preparação das equipas, a gestão dos atletas e os factores que influenciam o desempenho.
4. O que representa para si integrar a equipa de talentos da ZSports na cobertura do Mundial FIFA 2026?
I.G. R: Integrar a equipa da ZSports é muito gratificante e tem sido uma experiência bastante enriquecedora. Já tive a oportunidade de comentar o Mundial de 2022 noutra estação televisiva e, por isso, regressar a uma competição desta dimensão representa a continuidade de um caminho que tenho procurado construir na comunicação desportiva.
Além disso, trabalhar com profissionais experientes permite-nos aprender, trocar perspectivas e oferecer ao público uma cobertura mais completa. O Mundial é o maior palco do futebol e participar nesta experiência, agora através da ZSports, tem sido fantástico.
5. De que forma a experiência como antiga jogadora influencia a sua análise e leitura dos jogos?
I.G. R: A experiência como antiga atleta influencia profundamente a minha análise. Quem viveu o futebol por dentro consegue compreender melhor aquilo que se passa na cabeça dos jogadores, sobretudo nos momentos de maior pressão.
Durante uma partida, conseguimos identificar os momentos cruciais, perceber como os treinadores podem alterar a forma de jogar e analisar de que maneira as fragilidades do adversário podem ser exploradas. Ao mesmo tempo, sabemos que existem dias em que as coisas simplesmente não correm bem e em que a outra equipa consegue ser superior.
Por isso, procuro não analisar apenas o resultado. Tento compreender o contexto, as decisões, o estado emocional dos jogadores e tudo aquilo que contribuiu para o desempenho apresentado em campo.
6. Que perspectiva pretende levar ao programa: técnica, táctica, estratégica, motivacional ou outra?
I.G. R: Pretendo levar diferentes perspectivas, mas a componente motivacional terá um lugar muito importante. Actualmente, a motivação influencia bastante a performance dos jogadores e pode determinar a forma como uma equipa reage aos momentos difíceis.
Naturalmente, também abordarei questões técnicas, tácticas e estratégicas. Contudo, considero essencial explicar ao público que o futebol é jogado por pessoas. A confiança, o estado emocional, a liderança e a capacidade de superar a pressão podem mudar completamente o rumo de uma partida.
7. Como a Irene Gonçalves avalia a evolução do futebol feminino em Angola e quais são os principais desafios para o seu crescimento?
I.G. R: O futebol feminino em Angola tem evoluído, sobretudo com o aumento do número de praticantes em diferentes províncias e com a criação de equipas femininas por alguns dos principais clubes do país. Esse crescimento demonstra que existe interesse, talento e vontade de desenvolver a modalidade.
No entanto, ainda precisamos de melhorar a competição interna. É necessário criar um campeonato mais longo, regular e competitivo, que permita às atletas jogar durante mais tempo e evoluir de forma consistente.
Além disso, devemos investir nos campeonatos de formação e nas selecções jovens. A minha experiência como coordenadora do futebol feminino no Progresso Associação Sambizanga e no Clube Desportivo 1.º de Agosto mostrou-me que o desenvolvimento sustentável começa na base. Sem formação, organização, acompanhamento das atletas e competições regulares, torna-se mais difícil construir selecções nacionais fortes.
8. Na sua opinião, o que torna o Mundial FIFA uma competição tão especial para jogadores, adeptos e profissionais do futebol?
I.G. R: O Mundial é uma grande festa para todo o planeta. É uma competição que reúne diferentes culturas, povos e formas de viver o futebol. Durante esse período, milhões de pessoas acompanham os mesmos jogos e partilham emoções, independentemente da sua origem.
Para os jogadores, representa o ponto mais alto da carreira. Para os adeptos, é um momento de celebração e identificação com as suas selecções. Já para os profissionais do futebol, é também uma oportunidade de aprendizagem, porque conseguimos observar diferentes modelos de jogo, estratégias e tendências da modalidade.
9. Que selecções, jogadores ou histórias acredita que poderão marcar esta edição do Mundial?
I.G. R: Acredito que Cabo Verde e Noruega podem marcar esta edição e apresentar percursos interessantes. Cabo Verde, em particular, representa uma história importante para o futebol africano e lusófono.
Quanto aos jogadores, nomes como Mbappé, Haaland, Harry Kane, Lionel Messi, Jude Bellingham e Vozinha poderão assumir um papel de destaque. No entanto, o Mundial também costuma revelar novos protagonistas. Muitas vezes, são os jogadores menos esperados que aproveitam a competição para mostrar o seu talento ao mundo.
10. Que temas considera fundamentais para enriquecer o debate antes e depois dos jogos?
I.G. R: Antes dos jogos, considero importante apresentar a trajectória das selecções, o percurso dos atletas e a forma como cada equipa chegou ao Mundial. Esse contexto ajuda o público a compreender melhor as expectativas e os desafios de cada participante.
Depois das partidas, devemos analisar os resultados, mas sem limitar a conversa ao marcador. É necessário falar das escolhas dos treinadores, do comportamento táctico das equipas, dos momentos decisivos e do rendimento individual e colectivo.
Além disso, temas como liderança, motivação, preparação física, arbitragem e gestão emocional também podem enriquecer bastante o debate.
11. Como descreveria a sua forma de comunicar com o público e o que espera transmitir aos telespectadores?
I.G. R: Comunico de forma natural, transparente e equilibrada. Procuro manter a neutralidade em relação aos jogadores e às selecções, porque considero que o papel de uma comentadora não é torcer, mas ajudar o público a compreender melhor o jogo.
Ao mesmo tempo, quero utilizar uma linguagem acessível, sem perder a profundidade da análise. A minha experiência como antiga atleta, dirigente e professora ensinou-me que o conhecimento deve ser partilhado de forma clara. Assim, espero que os telespectadores se sintam confortáveis a acompanhar as minhas análises e consigam retirar delas uma compreensão mais ampla do futebol.
12. Como vê a evolução da presença feminina na comunicação desportiva em Angola e no mundo?
I.G. R: A evolução tem sido notável. Aos poucos, as mulheres estão a conquistar mais espaço na comunicação desportiva, não apenas como apresentadoras, mas também como comentadoras, analistas e especialistas.
Nesta cobertura do Mundial na ZSports, por exemplo, temos três mulheres no painel de comentadoras. Isso demonstra que existem mais oportunidades e que a competência feminina começa a ser reconhecida.
Ainda assim, é necessário continuar a criar espaço para que mais mulheres possam participar, aprender e mostrar o seu conhecimento. A presença feminina não deve ser vista apenas como uma questão de representação, mas como o reconhecimento de que as mulheres também possuem experiência, formação e capacidade para analisar, gerir e comunicar o futebol.
Acredito que cada mulher que ocupa estes espaços ajuda a abrir caminho para outras. E quanto mais mulheres forem vistas a comentar, liderar e tomar decisões no desporto, mais natural será para as novas gerações acreditarem que também podem chegar lá.



