Aos 26 anos, Joseane Mendes é uma jovem angolana que reúne um percurso que chama a atenção no sector aeronáutico. É técnica de manutenção aeronáutica na TAAG, gestora aeronáutica, especialista em protecção ambiental na aviação, fundadora de uma empresa dedicada ao desenvolvimento profissional do sector e autora de um projecto inovador que pretende contribuir para o futuro da aviação sustentável em Angola. Tudo isto numa idade em que muitos profissionais ainda procuram definir o rumo das suas carreiras.
Quando um avião levanta voo, poucos imaginam a complexa operação que acontece muito antes da decolagem. Enquanto os passageiros ocupam os seus lugares, dezenas de profissionais trabalham nos bastidores para garantir que tudo aconteça com segurança, precisão e eficiência. É precisamente nesse universo, onde o rigor técnico é inegociável e a responsabilidade pesa toneladas, que Joseane Mendes decidiu iniciar a sua carreira.
“Ainda considero que estou no início da minha carreira e tenho plena consciência de que há muito por aprender e conquistar. Tudo o que alcancei até agora é resultado de muito estudo, dedicação e da vontade constante de evoluir.”
Há quem descubra a profissão por acaso, mas no caso de Joseane, a aviação sempre fez parte da sua história. Segundo conta ao nosso portal, nasceu numa família ligada ao sector, onde o pai iniciou a carreira como técnico de manutenção aeronáutica, especializado em motores e fuselagem, e mais tarde tornou-se piloto do Boeing 777. Já a mãe, também trabalhou durante anos na actual ENNA (Empresa Nacional de Navegação Aérea). “Costumo dizer que cresci entre aviões porque, na verdade, a aviação sempre fez parte da minha vida”, afirma.
Foi essa convivência que despertou uma curiosidade que nunca mais desapareceu. Quando fala sobre aviação, Joseane faz questão de lembrar que um voo não depende apenas de quem está na cabine de comando. Para ela, existe um verdadeiro ecossistema de profissionais que continua invisível para grande parte da sociedade, como os técnicos de manutenção, controladores de tráfego aéreo, engenheiros, oficiais de operações, especialistas em segurança operacional, logística, qualidade e protecção ambiental, profissões que considera fundamentais para que cada aeronave descole em segurança.
“A aviação funciona como um grande sistema e cada profissional representa uma peça essencial. Se uma dessas peças falhar, toda a operação pode ser comprometida.”
Talvez seja por isso que um dos seus maiores objectivos seja precisamente aproximar os jovens deste universo e mostrar que a aviação oferece muito mais oportunidades do que aquelas que normalmente aparecem aos olhos do público.
Identificou um problema na aviação e criou a MULTIMANUT como solução
Enquanto muitos aguardam pelo momento certo para empreender, Joseane decidiu criar o seu próprio caminho, fundando a MULTIMANUT Soluções, empresa dedicada à organização de fóruns, colóquios, seminários e iniciativas de desenvolvimento profissional para o sector aeronáutico.
Durante a sua formação académica, percebeu que existia uma distância significativa entre aquilo que era ensinado nas salas de aula e a realidade vivida pelas empresas do sector. Em vez de aceitar essa limitação, criou uma plataforma para aproximar estudantes, profissionais e instituições. “O objectivo sempre foi aproximar os estudantes e os jovens profissionais da indústria aeronáutica, criando espaços de aprendizagem, partilha de experiências, networking e desenvolvimento profissional.”
Através da MULTIMANUT, Joseane já promoveu várias iniciativas, entre elas, o Fórum Técnico-Profissional “Por Detrás do Voo”, que reuniu profissionais de diferentes áreas para mostrar que a aviação vai muito além dos pilotos e dos assistentes de bordo. O sucesso dos eventos confirmou aquilo em que sempre acreditou, “existe uma enorme procura por conhecimento especializado na indústria aeronáutica angolana”.
A inquietação de Joseane não terminou na formação profissional. Recentemente, apresentou o Eco Paper Fuel Angola, um projecto concebido por si que propõe transformar resíduos de papel em matérias-primas para a produção de combustíveis sustentáveis para a aviação (SAF), alinhando inovação, economia circular e sustentabilidade.
A iniciativa foi apresentada perante representantes nacionais e internacionais, incluindo membros da Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO), recebendo reconhecimento pelo seu potencial. Para Joseane, aquele momento foi muito mais do que uma conquista pessoal. “Senti que estava a representar o potencial dos jovens angolanos para inovar e propor soluções para desafios globais. Mais do que produzir combustível, queremos demonstrar que a sustentabilidade também pode gerar conhecimento, inovação, desenvolvimento económico e novas oportunidades para o país.”
“Já senti que algumas pessoas duvidavam das minhas capacidades antes mesmo de conhecerem o meu trabalho”
Apesar do percurso já construído, Joseane reconhece que ser jovem nem sempre facilita o caminho. Em vários momentos da carreira sentiu que a sua idade despertava dúvidas sobre a sua capacidade profissional, mas escolheu responder da única forma que conhece, com trabalho. “Já senti que algumas pessoas duvidavam das minhas capacidades antes mesmo de conhecerem o meu trabalho. Nunca deixei que isso me desmotivasse. Sempre procurei responder através da competência, da preparação, do profissionalismo e dos resultados.”
“O meu trabalho técnico dá-me conhecimento e experiência prática. O empreendedorismo permite-me transformar ideias em projectos e a criação de conteúdos desafia-me a estudar continuamente e a partilhar aquilo que aprendo. No final, uma área fortalece a outra.”
Daqui a dez anos, Joseane imagina-se a ocupar funções de liderança na TAAG, contribuindo para a gestão eficiente do consumo de combustível e para a sustentabilidade das operações aéreas. Quer também concretizar o sonho de pilotar um Boeing 737 e transformar a MULTIMANUT numa referência nacional e internacional em consultoria e desenvolvimento da aviação.
Mas, acima de todos os cargos e conquistas, existe um objectivo que permanece inalterado, inspirar outros jovens, mostrar-lhes que a idade não define o tamanho dos sonhos e que o futuro da aviação angolana também pode ser construído pelas mãos de uma geração que escolheu estudar, inovar e acreditar.





