A depressão infantil ainda é um tema cercado por dúvidas e ideias erradas. Mudanças de comportamento, isolamento, alterações emocionais ou dificuldades no quotidiano podem ser interpretadas como uma fase passageira, quando, em determinadas situações, justificam uma avaliação mais atenta por parte dos adultos e de profissionais especializados.
É a partir desta realidade que a psicóloga clínica e professora angolana Elizabeth Lopes Vieira apresenta o livro A Psicologia Clínica nos Cuidados de Neuropediatria: Atenção Multidisciplinar à Criança com Depressão. A obra procura desmistificar a ideia de que as crianças não são susceptíveis de desenvolver depressão e aproximar o conhecimento científico das famílias, escolas e profissionais que acompanham a infância.
Lançado a 31 de Julho de 2026, no Arquivo Nacional, em Luanda, o livro cruza conhecimentos da Psicologia Clínica e da Neuropediatria e propõe uma abordagem humanizada, assente na compreensão das regulações emocionais e no acompanhamento multidisciplinar da criança.
Depressão infantil: reconhecer os sinais pode fazer a diferença
Um dos pontos centrais da obra é a necessidade de compreender que nem toda a tristeza corresponde a uma depressão, mas que o sofrimento emocional da criança também não deve ser automaticamente desvalorizado.
Segundo a apresentação do livro, Elizabeth Lopes Vieira aborda ferramentas destinadas à identificação de sinais biológicos e comportamentais associados à depressão infantil, procurando diferenciá-los da tristeza não patológica. A proposta inclui ainda estratégias clínicas para tratamento e suporte emocional.
Esta atenção torna-se particularmente importante porque a criança nem sempre consegue identificar, organizar ou verbalizar aquilo que sente. Por isso, observar alterações persistentes e compreender o contexto em que surgem pode ajudar os adultos a perceber quando é necessário procurar acompanhamento especializado.
Mais do que colocar um diagnóstico nas mãos das famílias ou dos professores, a obra procura oferecer informação para que os sinais não sejam ignorados e para que a procura de ajuda aconteça de forma mais consciente.

Saúde mental infantil também passa pelo ambiente familiar
O livro chama igualmente a atenção para uma dimensão que nem sempre recebe o mesmo destaque: o papel dos adultos no equilíbrio emocional das crianças.
De acordo com a sinopse, as rotinas diárias e o estado psicoemocional dos cuidadores podem influenciar o bem-estar da criança. A reflexão proposta pela autora coloca, assim, pais e outros adultos de referência dentro da discussão sobre saúde mental infantil, sem retirar a importância da avaliação e intervenção dos profissionais.
Na prática, isto significa olhar para a criança dentro do ambiente em que cresce. As relações familiares, a escola, as rotinas e a forma como encontra espaço para expressar emoções fazem parte desse contexto.
A obra defende, por isso, a participação da família e da escola como agentes activos no cuidado e na recuperação de crianças com desregulação emocional ou depressão.
Depressão na infância exige uma resposta multidisciplinar
Outro eixo desenvolvido por Elizabeth Lopes Vieira é a necessidade de articulação entre diferentes áreas. Psicólogos, neuropediatras, pediatras, psicopedagogos, educadores e famílias podem desempenhar papéis distintos, mas complementares, no acompanhamento da criança.
É precisamente desta ligação que surge o carácter multidisciplinar defendido no livro. Em vez de tratar o sofrimento emocional como uma questão isolada, a proposta procura construir uma rede de cuidado capaz de observar diferentes dimensões do desenvolvimento infantil.
A obra apresenta ainda intervenções práticas e orientações destinadas a aproximar família, escola e profissionais de saúde. Segundo a autora, o objectivo é transformar o conhecimento numa ferramenta que contribua para o bem-estar mental e para o desenvolvimento saudável das crianças.
Elizabeth Lopes Vieira leva a experiência clínica para o livro
A escolha do tema acompanha o próprio percurso profissional da autora. Natural do Uíge, Elizabeth Lopes Vieira é licenciada em Psicologia Clínica pela antiga Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto e mestre em Psicologia da Saúde pela Universidade Europeia del Atlântico, em Santander, Espanha. Possui ainda formação em Psico-Oncologia e certificação em avaliação e interpretação de testes psicotécnicos.
Com mais de uma década de experiência em contexto clínico e hospitalar, passou pela Maternidade Lucrécia Paim, pelo Hospital Esperança e pela Clínica Multiperfil. O seu percurso inclui acompanhamento psicológico, avaliação psicodiagnóstica, Psico-Oncologia Pediátrica, suporte emocional a pacientes e cuidadores e participação em equipas multidisciplinares.
A psicóloga levou também esta experiência para o ensino. Foi professora da disciplina de Distúrbios Comportamentais e Emocionais na Infância e Adolescência, no curso de Psicologia Clínica do Instituto Superior Politécnico Internacional de Angola, e exerce actualmente actividade docente na área da Psicologia.
Psicologia infantil entre a ciência, a família e a escola
Embora tenha uma componente técnica, o livro não foi pensado apenas para especialistas. O público definido pela própria autora inclui psicólogos clínicos e neuropsicólogos, neuropediatras, pediatras, psicopedagogos, pais, educadores, estudantes das áreas da saúde e reabilitação e outros leitores interessados no tema.
Esta abrangência ajuda a compreender o propósito da publicação: levar a discussão sobre saúde mental infantil para além do consultório e aproximá-la das pessoas que convivem diariamente com as crianças.
Ao reunir conhecimento científico, experiência profissional e orientações práticas, Elizabeth Lopes Vieira coloca no centro da discussão uma mensagem simples, mas necessária: prestar atenção à saúde de uma criança também significa observar o seu mundo emocional.
Num momento em que se fala cada vez mais de saúde mental, compreender a depressão na infância pode ajudar famílias e escolas a trocar a desvalorização dos sinais pela escuta, pela informação e, sempre que necessário, pela procura de acompanhamento profissional.
E em casa ou na escola, sabemos realmente distinguir uma mudança passageira de um sinal de sofrimento emocional? Partilhe a sua opinião nos comentários.


