O estigma, o silêncio e a dificuldade em reconhecer o sofrimento psicológico continuam a afastar muitas pessoas dos cuidados de saúde mental. Em Angola, dados do Ministério da Saúde mostram um aumento das tentativas de suicídio registadas no primeiro semestre de 2025.

Falar sobre suicídio continua a ser difícil em muitas famílias, comunidades e instituições. O receio de julgamento, a associação entre sofrimento psicológico e fraqueza e a falta de informação sobre saúde mental podem fazer com que situações de sofrimento sejam mantidas em silêncio.

É precisamente contra esse silêncio que se assinala, a 10 de Setembro, o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio.

Em 2026, a iniciativa encerra o ciclo de três anos da campanha “Changing the Narrative on Suicide”, promovida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio. O apelo deste ano é “Start the Conversation”, ou “Começar a conversa”, com o objectivo de combater o estigma e criar espaços onde as pessoas possam falar sobre o sofrimento e procurar apoio. (Organização Mundial da Saúde)

Um problema de saúde pública

A OMS estima que mais de 720 mil pessoas morram por suicídio todos os anos. Em 2021, o suicídio foi a terceira principal causa de morte entre pessoas dos 15 aos 29 anos e 73% das mortes registadas ocorreram em países de baixo e médio rendimento. (Organização Mundial da Saúde)

Os números mostram também que o fenómeno não pode ser explicado por uma única causa.

Segundo a OMS, os comportamentos suicidas podem estar associados a uma combinação de factores sociais, psicológicos, culturais, económicos e ambientais. Situações de perda, isolamento, conflitos relacionais, dificuldades financeiras, violência, abuso, discriminação e problemas de saúde podem aumentar a vulnerabilidade em determinados contextos. (Organização Mundial da Saúde)

Por isso, reduzir o suicídio a uma determinada doença ou a um único acontecimento pode contribuir para uma compreensão incompleta do problema.

O peso do estigma

Apesar de a saúde mental fazer parte da saúde como um todo, falar sobre sofrimento psicológico ainda pode ser acompanhado por vergonha ou medo de julgamento.

Em alguns contextos, sintomas de depressão, ansiedade ou outros problemas de saúde mental são interpretados como falta de força, ausência de fé ou incapacidade de enfrentar as dificuldades.

Este tipo de percepção pode atrasar a procura de ajuda.

A OMS considera o estigma relacionado com a saúde mental e com o suicídio um dos obstáculos à procura de apoio. A organização defende que criar ambientes onde as pessoas possam falar sobre o que estão a viver, sem serem julgadas, é parte importante das estratégias de prevenção. (Organização Mundial da Saúde)

Em Angola, os dados reforçam a necessidade de atenção

Em Angola, os dados assistenciais divulgados pelo Ministério da Saúde mostram a dimensão da procura por cuidados de saúde mental.

No primeiro semestre de 2025, o Hospital Psiquiátrico de Luanda registou 28.921 atendimentos a pacientes com transtornos mentais.

No mesmo período, foram registadas 511 tentativas de suicídio, contra 336 no primeiro semestre de 2024. O Ministério da Saúde indicou ainda que 1.992 pacientes foram identificados com sintomas de depressão. (Ministério da Saúde)

Os dados referem-se aos casos registados pelo Hospital Psiquiátrico de Luanda e, por isso, não representam necessariamente a totalidade das situações existentes no país.

Ainda assim, ajudam a evidenciar a necessidade de reforçar a prevenção, o acompanhamento e o acesso aos cuidados de saúde mental.

A própria OMS tem defendido o reforço das políticas de saúde mental e das estratégias nacionais de prevenção do suicídio, incluindo a identificação precoce das situações de risco e o acompanhamento das pessoas afectadas. (Organização Mundial da Saúde)

Prevenir também passa por saber ouvir

A prevenção não começa apenas quando existe uma emergência.

Pode começar na forma como uma família reage quando alguém manifesta sofrimento, na capacidade de uma escola reconhecer sinais de alerta ou na existência de ambientes de trabalho onde falar sobre saúde mental não seja visto como falta de profissionalismo.

A OMS indica que existem intervenções eficazes para a prevenção do suicídio, incluindo o acesso atempado a apoio emocional e a cuidados de saúde adequados. (Organização Mundial da Saúde)

Isto não significa que amigos, familiares, professores ou colegas devam assumir o papel de profissionais de saúde. Significa reconhecer que determinados sinais de sofrimento merecem atenção e que procurar ajuda especializada deve ser encarado como uma medida de cuidado.

Falar sobre suicídio não significa incentivar o comportamento

Um dos obstáculos à prevenção é precisamente o receio de abordar directamente o assunto.

Segundo a OMS, falar sobre suicídio de forma responsável não aumenta o risco por si só. Pelo contrário, uma conversa cuidadosa pode criar uma oportunidade para a pessoa expressar aquilo que está a sentir e ser encaminhada para apoio. (Organização Mundial da Saúde)

A diferença está na forma como o tema é abordado.

Para os meios de comunicação, a OMS recomenda evitar manchetes sensacionalistas, descrições de métodos, imagens relacionadas com a morte ou a apresentação do suicídio como resposta para problemas pessoais. Em contrapartida, recomenda informação rigorosa sobre prevenção, recuperação e formas de procurar ajuda. (Organização Mundial da Saúde)

Mudar a narrativa começa pela conversa

A campanha mundial de 2026 propõe justamente uma mudança na forma como o suicídio é discutido: menos silêncio e estigma, mais informação, empatia e acesso a apoio.

Essa mudança não depende apenas dos profissionais de saúde.

Envolve famílias, escolas, empresas, instituições públicas, meios de comunicação e comunidades.

Em Angola, onde a procura por serviços de saúde mental continua a revelar uma realidade que não pode ser ignorada, falar sobre o tema de forma responsável pode contribuir para que mais pessoas reconheçam o sofrimento psicológico como uma questão de saúde e não como uma falha pessoal.

Porque prevenir também significa criar condições para que pedir ajuda deixe de ser motivo de vergonha.

Serviço

Em situações de sofrimento psicológico intenso ou de risco imediato, é importante procurar apoio profissional de saúde ou um serviço de urgência. Em situações de emergência, deve ser contactado o serviço de emergência adequado ou procurada a unidade de saúde mais próxima.

O Ministério da Saúde de Angola mantém informação sobre os serviços de saúde e iniciativas relacionadas com saúde mental. O Hospital Psiquiátrico de Luanda é uma das unidades de referência nesta área. (Ministério da Saúde)

Fontes consultadas

Deixe o seu comentário