Com um percurso construído entre a academia, a gestão de pessoas, a formação, a literatura, a poesia e as artes plásticas, Alzira Simões é uma das vozes que têm contribuído para o desenvolvimento humano e para a valorização da cultura em Angola. Professora universitária, antropóloga, socióloga, escritora, mentora e promotora cultural, soma mais de três décadas dedicadas à educação, à liderança e à criação de oportunidades para outras pessoas.
Para além do LiterArte, projecto que aproxima literatura e artes, mantém presença no YouTube através do canal “Alzira Simões – Poetando”, onde partilha leituras, poemas e reflexões poéticas. Mais recentemente, na entrevista concedida a Kindala no programa “Curadoria Sem Filtro”, voltou a reflectir sobre o fortalecimento da presença feminina no meio artístico e sobre o papel da mulher angolana nos espaços de criação, liderança e decisão.
Nesta conversa com o Mulheres.ao, fala sobre a sua trajectória, os desafios que encontrou, a importância da arte e os sonhos que continuam a orientar o seu caminho.
1. Quem é a Alzira Simões para além dos títulos académicos e das funções que desempenha? O que considera que melhor a define enquanto mulher?
A.S.: A Alzira Simões é uma mulher simples, que valoriza a honestidade, a humildade e a liberdade de pensamento. Gosto de ser respeitada como sou, com as minhas lacunas, inquietações e até com as minhas pequenas “loucuras” e rabujices. Defino-me também pela sinceridade — às vezes excessiva — e por um coração grande, que se entrega, se magoa, se desilude, mas continua a querer acreditar nas pessoas. Para além dos títulos, sou alguém que procura viver com averdadeacima de tudo.
2. O seu percurso passa pela antropologia, sociologia, gestão de pessoas, ensino, literatura e artes plásticas. Existe um fio condutor que une todas estas áreas ou cada uma respondeu a um momento diferente da sua vida?
A.S.: O meu percurso começou muito antes da Antropologia. Ainda criança, aquando da chegada (forçada) a Portugal, ajudei os meus pais na restauração. Na adolescência, antes de entrar na universidade, fui coordenadora e locutora numa rádio local (Braga), no tempo das chamadas “rádios piratas”, e almejei ser jornalista. Acabei por entrar em Antropologia, por falta de meia décima e apaixonei-me pela área. A Antropologia tornou-se uma filosofia de vida: respeitar, observar e procurar compreender as culturas e, acima de tudo, as pessoas e seus usos e costumes.
As pessoas são, por isso, o fio condutor de tudo. Não poderia ser locutora, professora, formadora, mentora, gestora de pessoas ou artivista cultural sem esse interesse profundo pelo ser humano. A filosofia Ubuntu — “eu sou porque nós somos” — resume bem essa visão: crescemos quando reconhecemos o outro e quando colocamos o conhecimento ao serviço da comunidade. Aliás, defendo que o conhecimento só o é de facto quando o partilhamos, senão não vale muito guardá-lo somente para nós, ou ter os diplomas e certificados pendurados!
3. Há mais de três décadas que trabalha na formação e no desenvolvimento de pessoas. O que continua a motivá-la a ensinar e a aprender todos os dias?
A.S.: A frase do filósofo Sócrates: “Só sei que nada sei” é para mim um dos lemas de vida, logo, a aprendizagem é um processo contínuo, por exemplo, podem ler no meu Facebook o que acrescento à frase – “porém sei, que quanto mais sei, nada de facto sei”! Assim, além desta persistente procura que deve ser inerente a cada um de nós, mais aindaaos professores e formadores, o que me continua a motivar é a possibilidade de ver uma pessoa descobrir capacidades que talvez ainda não soubesse que tinha.
Ensinar nunca foi apenas transmitir conteúdos, é acender pequenas luzes. E aprender todos os dias é aceitar que ninguém chega sozinho e inteiro ao conhecimento. A vida, as pessoas, os alunos, os colegas, os livros e sobretudo os silêncios continuam a ensinar-me. Enquanto houver alguém disposto a crescer, eu também terei razões para continuar.
4. Ao longo da sua carreira viveu experiências em Angola e Portugal. Que aprendizagens retirou dessas realidades e de que forma influenciaram a sua visão sobre liderança, educação e desenvolvimento humano?
A.S.: Angola e Portugal deram-me olhares diferentes sobre a mesma humanidade. Em Portugal aprendi a importância da família, da (des)organização, do quanto custa a vida, da exigência e da leitura crítica do mundo e dos seus obstáculos; em Angola aprendi e aprendo todos os dias, a força da paciência, da resiliência, da criatividade e da capacidade de fazer acontecer mesmo quando os caminhos são ‘estreitos’. Essas experiências ensinaram-me que liderar é escutar, educar é transformar e desenvolver pessoas é reconhecer que cada trajectória tem o seu tempo, a sua cultura e a sua dignidade. Todavia, as aprendizagens prosseguem enquanto estiver viva, tiver vontade de desenvolver-me e (re)aprender todos os dias…
5. Muitas pessoas conhecem a professora e a especialista em Recursos Humanos. Que lado da Alzira ainda permanece pouco conhecido do público?
A.S.: Talvez o lado mais desconhecido seja o da mulher que observa o mundo, que se emociona com detalhes simples e que precisa de recolhimento para continuar a dar-se aos outros. Há uma Alzira que ama estar em silêncio na sua própria companhia e zona de conforto para dar espaço ao seu lado esotérico e espiritual; Nem sempre o público vê ou sabe dessa parte mais íntima, mas é nela que habitam muitas das minhas forças.
6. A literatura e, mais recentemente, a pintura ganharam espaço no seu percurso. O que encontrou na arte que talvez não encontrasse na academia ou na gestão?
A.S.: Na arte encontrei uma linguagem onde a alma não precisa de pedir licença. A academia organiza o pensamento (às vezes descontroi e desorganiza mais – risos), a gestão estrutura processos, mas a literatura, a poesia e a pintura permitem-me comunicar e sobretudo sentir, o que nem sempre cabe nos relatórios, nas aulas ou nas reuniões. A arte concede-me liberdade, espanto e também me devolveu a infância criativa(que não vivi integralmente) que, por vezes, a vida adulta tenta domesticar.
7. Criou e acompanha o LiterArte há vários anos, um projecto que tem dado palco a novos talentos. O que representa para si ver outras pessoas descobrirem a sua voz através da escrita e da arte?
A.S.: O projecto nasceu desse desejo de unir a literatura, poesia, à pintura, escultura e outras expressões artísticas, mas também de criar lugar para quem muitas vezes não encontra palco. Cada obra apresentada é uma interpretação do texto tornada visível através da obra visual é a voz do escritor/poeta manifestada através do olhar e das obras dos artistas plástico-visuais.
Quando um novo talento se afirma, sinto que a arte e cultura ganha mais uma janela e que Angola se reconhece melhor no espelho da sua própria criatividade e inúmeros talentos. O LiterArte é uma das experiências mais bonitas do meu percurso, considero que é a missão do meu retornar à minha terra natal.
É também nesse espírito que nasce a minha presença no YouTube, através do canal “Alzira Simões – Poetando”. A poesia, quando dita em voz alta, ganha corpo, respiração e proximidade. No canal partilho poemas, leituras e textos ligados a datas, afectos e causas, porque acredito que a palavra pode cuidar, despertar e aproximar pessoas. Mais recentemente, através da rubrica ‘Vamos Ler’, no programa LACTUR da Rádio LAC, todas as quartas-feiras, procuro igualmente dar VOZ à poesia de escritores nacionais ou outros que aprecio.


8. Enquanto mulher, que desafios marcaram o seu percurso profissional e que ensinamentos retirou desses momentos mais exigentes?
A.S.: Como mulher, aprendi muito cedo que nem sempre basta ser competente e profissional; muitas vezes é preciso provar mais, resistir mais e explicar mais. Houve momentos de exigência, de incompreensão e de imenso cansaço, mas também houve encontros, alianças e conquistas que confirmaram o valor da persistência, da resiliência e até teimosia. Esses desafios ensinaram-me a não diminuir a minha voz para caber em espaços pequenos. Ensinaram-me e continuam a ensinar que a firmeza pode e deve andar de mãos dadas com o sorriso,a ternura e a empatia.
9. A liderança feminina continua a ser um tema central em Angola. Na sua perspectiva, quais são hoje os maiores obstáculos, mas também as maiores oportunidades para as mulheres que querem ocupar espaços de decisão?
A.S.: Os maiores obstáculos continuam a ser culturais, estruturais e, muitas vezes, invisíveis: a ideia de que a mulher deve pedir autorização para ocupar certos lugares, a sobrecarga familiar, a falta de redes de apoio e a desconfiança perante a liderança feminina. Mas as oportunidades também são reais. Há cada vez mais mulheres preparadas, conscientes, solidárias e determinadas. O grande desafio é transformar talento em presença efectiva nos espaços de decisão, sem que a mulher tenha de abdicar da sua identidade para ser reconhecida.
Foi também essa reflexão que levei para a conversa com o Kindala, no “Curadoria Sem Filtro”, quando falámos sobre o fortalecimento da presença feminina no meio artístico. A mulher angolana tem talento, memória, visão e capacidade de criação inigualáveis; o que precisa, muitas vezes, é de espaço, visibilidade e continuidade. Fortalecer o seu papel é abrir portas, sim, mas é igualmente garantir que ela possa permanecer, decidir, criar e inspirar outras mulheres sem ter de justificar constantemente a sua presença.
10. Actualmente integra o G100 Angola, uma rede internacional de mulheres líderes. O que significa fazer parte deste movimento e que impacto espera gerar através desta participação?
A.S.: Integrar o G100 Angola Global Networking Wing é, para mim, fazer parte de uma rede que entende a liderança como serviço e a igualdade como construção colectiva. Ser a líder da área da Cultura & Artes dá-me a possibilidade de unir aquilo em que acredito: pessoas, conhecimento, criatividade e transformação social. Espero contribuir para ampliar vozes, criar pontes, valorizar mulheres das artes e cultura angolanas e fortalecer projectos que mostrem que a arte e cultura também são O caminho para a equidade de género.
11. Depois de tantos anos dedicados ao desenvolvimento de pessoas, acredita que as mulheres angolanas estão hoje mais preparadas para liderar ou ainda carregam barreiras que precisam de ser desconstruídas?
A.S.: Acredito que as mulheres angolanas estão cada vez mais preparadas para liderar. Muitas já lideram, ainda que nem sempre os seus nomes apareçam nos lugares formais de poder. Lideram famílias, negócios, equipas, salas de aula, comunidades e sonhos. Mas ainda enfrentam barreiras que precisam de ser desconstruídas: preconceitos, desigualdades de acesso, expectativas sociais rígidas e a ideia de que a ambição feminina é ameaça. A preparação existe o que falta, muitas vezes, é que as estruturas acompanhem essa realidade.
12. Fora do trabalho, como encontra tempo para cuidar de si? Que hábitos, pessoas ou momentos lhe permitem manter o equilíbrio entre tantas responsabilidades?
A.S.: Confesso que nem sempre encontro esse work-balance de modo ideal. Mas tenho aprendido que cuidar de mim não é luxo, é uma necessidade. As exposições, as idas ao teatro, a concertos são para mim terapêuticas além do ginásio para cuidar da manutenção da saúde física; a leitura mais do que a escrita, a pintura, mais recentemente, uma boa conversa, o silêncio, a família, os amiga/os verdadeiros (muito raros nos dias que correm) e alguns momentos de contemplação ajudam-me a reencontrar o equilíbrio. Nos últimos anos tenho-me obrigado a parar, respirar e lembrar que também sou pessoa, não apenas função, missão ou responsabilidades. Em suma, comecei a dar-me mais valor e prioridade.
13. Quando olha para a mulher que era aos 30 anos e para a mulher que é hoje, que conversa gostaria de ter consigo própria?
A.S.: Como bem sabes (já as sofrestes na pele/corpo) algumas dores vão ensinar-te, algumas perdas vão abrir caminho e algumas demoras serão bênçãos disfarçadas. Dir-lhe-ia para confiar mais na sua intuição, para não ter medo de ser diferente e para guardar melhor o coração, sem o fechar. E talvez lhe dissesse também: continua. Um dia vais perceber que até os desvios fizeram parte da caminhada dos caminhos do mapa da vida.
14. Há algum sonho ou projecto que ainda deseja concretizar e que sente que representa o próximo capítulo da sua vida?
A.S.: O futuro a Deus pertence, como diria a senhora minha mãe (sorrisos)! E, claro que há sonhos, sim, afinal comandam a vida e, enquanto houver vida, há capítulos por escrever. Gostaria de continuar a consolidar projectos culturais e formativos, talvez dar mais corpo à minha produção literária e artística, e deixar alguma coisa que permaneça para além de mim: uma galeria/atelier do LiterArte (falta o espaço) como ‘escola de pensamento’, um movimento que una arte, literatura/poesia, educação e humanidade. O próximo capítulo talvez esteja a ser escrito agora: transformar experiência em legado.
15. Se pudesse deixar uma única mensagem às leitoras do Mulheres.ao — mulheres que conciliam família, carreira, desafios e sonhos, qual gostaria que fosse?
A.S.: A mensagem seria simples: MULHERES NÃO DESISTAM DE VOCÊS.
A vida pode exigir muito, a família pode chamar, o trabalho pode pesar, os sonhos podem parecer distantes, mas nenhuma mulher deve abandonar a sua própria essência para cumprir todos os papéis que o mundo lhe entrega e exige. Caminhem com coragem, estudem, criem redes, cuidem umas das outras e não tenham medo de recomeçar. Uma mulher que se reconhece é uma força que ilumina outras mulheres. O slogan do G100 “Together we make it happen“o expressa brilhantemente.

1 comentário
Gratidão Natalia Yange.
Aguardo os vossos comentários e reacções. E claro a vossa subscrição no Instagram do @literarte_ao e acompanharem o G 100 Angola, em breve haverá novidades.