A mobilidade urbana é hoje um dos maiores desafios das cidades, influenciando não apenas a forma como as pessoas se deslocam, mas também a sua qualidade de vida, produtividade e gestão do tempo. Para as mulheres, que frequentemente conciliam diferentes papéis no quotidiano, uma mobilidade mais eficiente, segura e flexível pode representar mais liberdade, autonomia e oportunidades.
Neste contexto, o Mulheres.ao conversa com a Directora-Geral da Heetch Angola Raquel Monteiro, para abordar os desafios da mobilidade urbana sob uma perspectiva feminina, reflectindo sobre o papel da inovação e da tecnologia na construção de soluções mais inclusivas. A entrevista procurará também explorar de que forma a nova experiência da plataforma responde às necessidades de passageiras e motoristas, promovendo uma maior participação das mulheres no ecossistema da mobilidade.
Raquel Monteiro: uma liderança construída entre diferentes culturas
1. Quem é a Raquel Monteiro para além do cargo de Directora-Geral da Heetch Angola? Que valores ou experiências considera terem moldado a mulher e a líder que é hoje?
Raquel Monteiro (R.M): Para mim não há duas pessoas, existe sim uma Raquel Monteiro apaixonada pelos desafios profissionais e pessoais em que se envolve. Para além do cargo, sou uma pessoa profundamente marcada pelas experiências e pelos diferentes contextos em que tive a oportunidade de viver e trabalhar.
O meu percurso começou em Portugal, levou-me a Moçambique e, actualmente, trouxe-me a Angola. Viver em países distintos e ver-me como uma cidadã do mundo permite-me ter um olhar curioso, mantendo a minha mente e coração abertos para novas culturas e desafios.
Essas etapas ensinaram-me a adaptar-me, a ouvir mais e a compreender que não existe uma única forma de olhar para os desafios, moldando a minha capacidade de adaptação e a líder que sou hoje.
2. Ao longo do seu percurso profissional, houve algum momento ou decisão que tenha mudado a forma como olha para a liderança, a inovação e o impacto que pode gerar na vida das pessoas?
R.M: O verdadeiro clique aconteceu quando percebi que ser líder não é mandar em pessoas, mas sim dar-lhes a oportunidade de crescerem. A liderança não deve servir para alimentar o ego, mas sim para dar voz a uma equipa e inspirar as pessoas a chegarem mais longe nas suas carreiras e objectivos pessoais. Aliado a isso, fui percebendo que a inovação só faz sentido quando responde a necessidades reais e melhora a vida das pessoas. Hoje, acredito numa liderança baseada em propósito, colaboração e responsabilidade. Se no meu percurso conseguir contribuir positivamente na vida de alguém, isso já é uma vitória enorme.
Mobilidade urbana para mulheres em Angola
3. A mobilidade urbana influencia directamente a qualidade de vida das pessoas. No caso das mulheres, que acumulam diferentes responsabilidades ao longo do dia, quais são os principais desafios que ainda enfrentam nas deslocações em Luanda?
R.M: Para muitas mulheres, o dia envolve várias responsabilidades, como o trabalho, a família e os filhos. Deslocar-se numa cidade movimentada como Luanda, enfrentando o trânsito e o tempo gasto, pode ser mais um factor de stress no dia a dia de uma mulher, que vê as suas 24 horas serem sempre curtas. Quando a mobilidade é difícil, afecta directamente a organização da nossa vida.
Poder proporcionar uma deslocação cómoda e segura pode ser um momento para recarregarem energias. Além disso, a mobilidade é uma questão de acesso a oportunidades; temos histórias de sucesso de jovens motoristas que conseguiram pagar os seus estudos ou mães que conciliam a vida familiar com a independência financeira.
4. A Heetch acaba de lançar uma nova experiência para passageiros e motoristas, assente em mais liberdade de escolha e flexibilidade. O que motivou esta evolução da plataforma e que necessidades concretas pretende responder?
R.M: Esta evolução nasce de uma escuta activa do mercado e da necessidade de acompanhar a forma como as pessoas vivem e se deslocam. Percebemos que as necessidades variam consoante o horário, o destino e o orçamento. Por isso, deixamos de ditar o preço de mercado para passarmos a mediar o encontro entre motorista e passageiro.
A nossa visão é simples: as soluções de mobilidade devem adaptar-se às pessoas e não o contrário, dando-lhes a capacidade de definir as melhores condições para as suas viagens.
5. Uma das mensagens da nova experiência da plataforma é “Ao Teu Ritmo. Ao Teu Preço.”. De que forma esta proposta pode transformar a rotina das mulheres, permitindo-lhes gerir melhor o tempo, os custos e as suas deslocações?
R.M: O conceito parte de uma ideia simples: cada pessoa tem uma rotina e possibilidades diferentes. Para as mulheres, que gerem múltiplas responsabilidades diariamente, encontrar formas eficientes de organizar o dia é vital. A tecnologia vem facilitar isto; com apenas dois cliques é possível chamar um motorista. Esta nova funcionalidade permite que a mulher possa propor o preço da sua viagem e escolher com quem viaja, trazendo a liberdade e a autonomia necessárias para fazer escolhas alinhadas com a sua realidade.
6. A segurança continua a ser uma preocupação para muitas mulheres quando utilizam serviços de mobilidade. Que papel pode uma plataforma tecnológica desempenhar para tornar cada viagem mais segura e gerar maior confiança entre passageiras e motoristas?
R.M: A segurança influencia directamente a forma como muitas mulheres decidem deslocar-se. A tecnologia tem um papel crucial ao tornar a experiência rastreável: na Heetch conseguimos saber o trajecto de todas as viagens feitas no aplicativo, garantindo maior segurança.
Além disso, disponibilizamos uma linha de apoio praticamente 24 horas por dia. Contudo, a confiança não se constrói apenas com tecnologia, mas também com regras claras, responsabilização e uma preocupação permanente com a experiência e o lado humano.
Mais mulheres como protagonistas no sector da mobilidade urbana
7. O número de mulheres que utilizam plataformas digitais para gerar rendimento continua a crescer. Como é que a Heetch pretende incentivar uma maior presença feminina entre os seus motoristas parceiros e que oportunidades identifica para estas mulheres?
R.M: Queremos contribuir para um ecossistema de mobilidade cada vez mais inclusivo e acreditamos no talento de cada indivíduo, seja como motorista ou noutra função. As plataformas digitais representam uma excelente oportunidade devido à flexibilidade que proporcionam na gestão do tempo. Na Heetch, recebemos de braços abertos, formamos, apoiamos e ensinamos. É fundamental criar condições para que mais mulheres se sintam confiantes, pois quanto mais participarem, mais representativo será o ecossistema que estamos a construir.
8. Enquanto mulher que lidera uma empresa tecnológica, acredita que ainda existem barreiras para a participação feminina nos sectores da mobilidade e da inovação? Como tem sido a sua experiência?
R.M: Sim, acredito que ainda existem barreiras e que a participação feminina nestes sectores continua a ser um desafio. A inclusão sempre apresentou os seus desafios e conquistas, e hoje é importante reforçar essas conquistas para que não sejam esquecidas. A minha experiência ensinou-me que as mulheres não devem limitar a sua participação por um sector ser tradicionalmente associado aos homens. A diversidade melhora as decisões e qualquer mulher que se sinta bem integrada, valorizada e reconhecida é uma vitória para si e para toda a sociedade.
9. A estratégia da Heetch fala de uma mobilidade mais humana e centrada nas pessoas. Na prática, como é que essa visão se reflecte nas novas funcionalidades da plataforma e na experiência que querem proporcionar aos utilizadores?
R.M: Para nós, uma mobilidade mais humana começa por compreender as necessidades reais das pessoas. A tecnologia é apenas a ferramenta; o centro deve ser quem precisa de se deslocar todos os dias. Por isso, a nova experiência assenta em dar maior liberdade de escolha, flexibilidade e autonomia tanto aos passageiros como aos motoristas, simplificando as suas vidas e tornando a mobilidade mais próxima da sua realidade.
10. A nova experiência Heetch dá mais autonomia tanto aos passageiros como aos motoristas. Na sua opinião, porque é importante devolver às pessoas o poder de decidir como, quando e com quem viajam?
R.M: Porque as pessoas têm realidades diferentes e a mobilidade não pode ser pensada como se todos tivéssemos as mesmas necessidades. Dar autonomia permite que passageiros e motoristas tenham um papel activo e façam escolhas mais ajustadas ao seu dia a dia. Acreditamos que a mobilidade do futuro será definida não apenas pela rapidez com que se chega ao destino, mas pela liberdade de escolher a melhor forma de lá chegar.
O futuro da mobilidade em Angola também precisa das mulheres
11. Quando olha para o futuro da mobilidade em Angola, imagina um sector com maior participação feminina? O que ainda precisa de mudar para que mais mulheres se sintam confiantes para integrar este ecossistema, seja como utilizadoras, motoristas ou líderes?
R.M: Sim, imagino um sector mais diverso e representativo da sociedade que serve. Para lá chegar, precisamos de continuar a trabalhar em áreas fundamentais como a segurança, o acesso a oportunidades, a formação e a representatividade.
É crucial que as mulheres percebam que há espaço para elas neste sector, seja como utilizadoras, motoristas, empreendedoras ou líderes. Quanto mais mulheres ocuparem estes espaços, mais natural será para outras acreditarem que também o podem fazer.
12. Se pudesse deixar uma mensagem às mulheres angolanas que diariamente enfrentam os desafios da mobilidade urbana, mas que também procuram novas oportunidades através da tecnologia, qual seria?
R.M: A minha mensagem é que continuem a ocupar espaços e a procurar novas oportunidades. A tecnologia está a transformar a forma como vivemos e trabalhamos, e é vital que as mulheres façam parte dessa transformação, não só como utilizadoras, mas também como criadoras e líderes.
No fundo, a cidade, a tecnologia e o futuro devem ser construídos por nós e para nós.
